outubro 22, 2011

ESTAMOS ZANGADOS COM A LUA



estamos zangados com a lua,
com o céu
e com o que se passa na rua.

andamos com esta desavença
na mala onde guardamos
as inutilidades que conquistamos,
mas a nossa alma é a mesma:
é uma liga de inferno e paraíso,
caldeada pela luz
e pelas trevas do que somos.

e somos apenas a convulsão
de uma coisa que não dominamos.

mas vivemos,
porque somos génios da ambiguidade
entre o grande e o elementar,
engrenados na imperfeição
das rodas dentadas humanas.

by NilsonBarcelli




outubro 21, 2011

PENSÁMOS EM NADA





Pensámos tanto em nada. Despenteados
caçamos fantasmas de elefantes
na casa desarrumada, de estores fechados,
milionários esbanjadores de instantes,
piratas de tesouros enterrados, ilhas distantes,
sorte parada. Pensámos demasiado em nada.
Cobertos por farrapos de tempo,
arame farpado de tempo, cheiro a terra
molhada, um momento, outro momento,
a memória inteira emparedada, e nós, 
sem desculpas, astronautas, centauros,
entre o sexo e o medo, presos na piscina
vazia e abandonada, no centro de tudo,
pensámos apenas em nada.

by JoséLuísPeixoto
http://www.joseluispeixoto.net/


outubro 16, 2011

O CEGO DAS ESQUINAS



- Digo-te a bruma coada na cidade, para
extase do porvir. Incito-te ao
levantamento do chão onde adormecem
lábios e pedras em murmúrios e salivas -
só para te ver transgredir as pautas.

- Eu digo-te uma luz ao fundo, protegida
por sombras e sons, numa campânula de
pedras em arco.

- Repara no cego.

- Repara no cão.

- Quando chega a casa - imagino um
cubículo de madeira - o cego das
esquinas mergulha as mãos no saco das
bofetadas, retira-as para o tampo da
mesa e conta o abandono a que o
votaram em cada moeda coitadinha.

É o cego das esquinas.O tempo de
rastos.

- Quem anda a montar o tempo?

- São os donos dos prédios altos que
fazem esquinas para os cegos.

- São os fazedores de cegos, os
os vendedores de concertinas.

by: MarArável
http://mararavel.blogspot.com

outubro 08, 2011




by: Magritte


surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

by: EugéniodeAndrade

outubro 02, 2011

setembro 27, 2011

AS PRIMEIRAS CHUVAS



Gustav Klimt


DESPONTA SETEMBRO
NESTE JARDIM DE DESASSOSSEGOS

OUTROS CÉUS
PÁSSAROS 
E CORES

MAS SÓ NOS TEUS BRAÇOS
EM FLOR, ADORMECEM
AS PRIMEIRAS CHUVAS

VICEJAM AINDA TÍMIDOS
OS RELÂMPAGOS
À SOMBRA DAS ROMÃS

E JÁ É TANTO

by MarArável

setembro 25, 2011

PROSARIA





Apago com luz estrelas que aguardam que o sol friolentamente se dilua no céu e faça luar o teu nome. Apago com palavras aquelas noites em que o sono não pega em ti e adormecemos de abraços dados cada um com o seu lugar marcado. À hora da poesia. Não faças distância perto de mim. Já não temos juízo nem idade para mastigar saudades. 
À hora da poesia.
És tu o poema. Engole estes versos que te dou sob a forma de tranquilizante para curar a arritmia dos dias feitos de sonhar. Negra-me a pele. Endireita o caminho enquanto atraverso o poema de um lado ao outro e dá-me tempo para temperar a impaciência.
À hora da poesia.
Farei silêncio grelhado com pedaços de lua cheia. Farei carícias enlatadas e cachos de manga com sabor a fruta. Se restar fôlego. Farei crepúsculo cozido com fragmentos de nevoeiro. Não. Tudo menos crepúsculo. A última vez que fiz deixei queimar as horas dentro da panela. Quando destapei o tempo já não havia minutos que chegassem para namorar prazeres.
À hora da poesia.
É o teu alguém que acontece em mim como se não tivesse acontecido nada. É o idoso que vou sendo cada vez que a idade celebra mais um ano. É despertar com os teus sorrisos os sorrisos que ainda não ousas. São antídotos fora do alcance da fala. São botões de emergência preguiçosos. São braços entrelançados no peito.
À hora da poesia.
Escrever-te-ei em prosa para que possas tomar cada verso como um banho de cascata no coração. Respirar profundo o mar de hoje rente à linha do horizontem. Descascar a loucura ao ritmo de um grito definitivo e descalçar ilusões antes que seja tarde para recuperar a realidade.
À hora da poesia.
Quem te mandou a ti ensaboar o corpo com insultos de amor? Quem te rasgou poemas nos olhos apenas pelo simples facto de serem cascas de relâmpago colados à pele? À hora de bater asas na cara de outros voos. Quem te mandou assaltar trapézios com a altura de um céu? Quem me virá acudir se me acontecer um poema e tu não tiveres mais poesia para encher versos? Quem sacudiu lençóis de água à varanda da minha sede? Quem te vai emprestar os meus lábios quando os teus já não tiverem mais beijos para gastar?
Eu. Eu que te julgava um poema? Não! Tudo menos poemas.
Hoje sei que à vista desarmada a poesia é realidade que acontece quando não se tem outra ilusão. Mas. O que importa escrever assim ou assado se conservo em mim a dádiva de ser alado como um pássaro voando na direcção correcta? 

by Paradoxos


"Prosaria" 
na voz de José-António Moreira, “Sons da Escrita”. 

Vídeo/Prémio 
atribuído pelo “Clube dos Poetas Vivos”. 

Grato a Otília Martel e ao Luís Milhano pela criação e organização do 
Passatempo “Viver a Poesia” 



setembro 23, 2011

SE VENS À MINHA PROCURA





SE VENS À MINHA PROCURA
EU AQUI ESTOU. TOMA-ME NOITE,
SEM SOMBRA DE AMARGURA,
CONSCIENTE DO QUE SOU.

NIMBA-TE DE MIM E DE LUAR.
DISPERSO EM TI SEREI MAIS TEU.
E DEIXA-ME DERRAMADO NO OLHAR
DE QUEM JÁ ME ESQUECEU.

by EugénioDeAndrade


setembro 20, 2011

TU

Vladimir Kush


TU, que ocultas nos olhos a força dos elementos
TU, que no teu sorriso alimentas a esperança
TU, que nos teus lábios emergem fantasias
TU, que no teu rosto transparece a ansiedade
TU, que no teu rosto se revelam mil desejos
TU, que em tuas mãos despertam subtis carícias
TU, que em cada gesto dominas o impulso

TU, que sabes ser o tempo a eternidade,
e sabes que a vida não perdoa hesitações,
não temas por mais tempo a realidade
não reprimas no peito as tuas emoções

TU, que sabes existir em tudo imperfeição,
e sabes haver outro horizonte à tua espera,
não pode haver tratado, regra ou convenção
que impeça de viver a tua primavera...

TU, que sabes ser a vida apenas um momento
e sabes que há-de vir a hora da verdade,
solta as tuas velas à mercê do vento
e parte deste cais rumo à liberdade!...


by AlbinoSantos
http://as-poliedro.blogspot.com/

setembro 16, 2011

DESPIDO POR UM OUTONO


imagem da net

- boa noite
- boa noite
- linda lua…
- talvez se a noite não fosse
uma noite assim tão nua
- nua? Os meus olhos não enxergam
A nudez que te apoquenta
- porque não tens o teu peito
despido por um Outono
que me parecia perfeito
- o inverno se aproxima
- o inverno não me encontra
morro aos pedaços, de frio
fico-me só por um fio
do lado de cá da vida
- é uma batalha perdida?
Ou é só um doentio
Ataque de solidão?
- talvez seja coração
Ou ausência de ternura
Doença que não tem cura
Apanhada com um beijo
Numa noite onde ela
Me vestiu, sua loucura

By NunoGuimarães


setembro 09, 2011

A MULHER DE NEGRO






Quando me aproximei da bicicleta, prestei atenção aos meus passos na terra. O som da terra solta a mover-se sob os meus pés. A terra solta como um animal seco a falar-me numa voz de tempo que passou, que se esgotou em anos que não vivi. Como se eu caminhasse, me aproximasse da bicicleta, e a terra sob os meus pés fosse já uma terra morta, fosse já um resto seco, solto e morto que muitas gerações usaram e me deixaram usado, gasto, seco, solto e morto. Depois, os movimentos de subir para cima da bicicleta desenhados pelo som da terra solta da estrada. Eu a passar a perna direita sobre o selim. Eu a sentar-me, a pousar os pés nos pedais. Os pneus da bicicleta, finos. Os pneus a deslizarem na terra. O som liso da terra interrompido por pedras. Pedras como a pontuação da tarde. Pedras pequenas como vírgulas, pedras maiores como pontos.

À minha volta, árvores, todos os tons da cor verde. Todas as lembranças da cor verde: carvalhos com a cor de vozes a falarem-me de um tempo bom; pinheiros com a cor escura do medo; choupos com a cor da água a correr, e a infância, e a profundidade bela dos lagos que imaginei porque, em algum momento da minha vida imaginei lagos profundos e belos. Deixei a estrada, um movimento no guiador da bicicleta, os dois braços a moverem a linha do guiador da bicicleta. De repente, a terra seca a desaparecer. Uma fronteira que talvez fosse uma porta e, sob o pneu da bicicleta, a terra seca a transformar-se em ervas depois de ter chovido, raízes húmidas a saírem fora da terra, pedras limpas. De repente, não se conseguia imaginar o pó. Troncos de árvores à minha volta. Arbustos que se agarravam a troncos de árvores, como se fossem braços que se agarravam a troncos grossos de árvores. A luz entrelaçava-se em tudo: nos troncos, nos arbustos, no som dos pneus da bicicleta a fazerem estalar pequenos ramos sobre o chão húmido de ervas e de folhas. A luz chegava de um céu que nem se via, nem se imaginava depois dos ramos mais altos das árvores.

Ao entrar na floresta, o guiador a balançar nas minhas mãos, afastava-se de tudo o que era a minha casa, os meus amigos, os lugares onde pensava que me podia sentir seguro. A tarde tornara-se fresca no meu corpo sob as roupas: a camisola branca, as calças. Conhecia menos o meu corpo sob as roupas do que conhecia as roupas. Conhecia as roupas do tempo que passaram guardadas em gavetas, conhecia-as de quando as dobrei e guardei em gavetas, quando as escolhi e comprei, e, nesse dia, quando as escolhi por querer vesti-las. Lembrava-me do meu corpo. E, ao longe, na berma do caminho, um vulto negro. Os sons da floresta, as árvores, a bicicleta e, ao longe, o silêncio imóvel de um vulto negro. Aproximei-me e era uma mulher vestida de negro. Um xaile negro sobre os ombros. Um lenço negro sobre a cabeça. O som dos pneus da bicicleta a pararem, o som de amassarem folhas húmidas e de fazerem estalar ramos. Os meus pés a pousarem no chão. Os olhos da mulher entre o negro. Os olhos pequenos da mulher. O seu rosto branco. Vimo-nos como se nos encontrássemos, como se nos tivéssemos perdido havia muito tempo e nos encontrássemos. O tempo deixou de existir. O silêncio deixou de existir. Pousei a bicicleta no chão para caminhar na direcção da mulher. Era atraído por segredos. Durante os meus passos a mulher estendeu-me a mão. A sua mão era muito velha. A palma da sua mão tinha linhas que eram o mapa de uma vida inteira, uma vida com todos os seus enganos, com todos os seus erros, com todas as suas tentativas. Os seus olhos de pedra. Senti os ossos da sua mão a envolverem os meus dedos. Não me puxou, mas eu aproximei o meu corpo do seu. Senti a sua respiração no meu pescoço. A sua respiração era uma brisa. E a sua voz. Quanto chorei por ti, disse-me.

Eu soube que aquela mulher de negro me conhecia muito bem. Conhecia-me quando eu estava sozinho. Conhecia-me quando eu pensava naquilo que nunca contei a ninguém. Os seus olhos tinham a imagem da minha angústia. Quanto chorei por ti. Hoje, sou eu que preciso de ti, disse-me. Olhei-a nos olhos porque os olhos eram o sítio por onde ela me via. Tínhamos as mãos dadas, estávamos próximos, mas eram os olhos que deixavam que nos tocássemos. Falou-me de um homem que morria. A morte. Eu encontrei a morte muitas vezes. Há instantes em que a morte me toca. A morte tem mãos de fumo. Em instantes que não consigo prever, a morte toca-me por dentro. Às vezes, dou-lhe a mão, aproximo-me dela, ouço o que tem para me dizer. Eu conhecia muito bem aquela mulher de negro. Dentro da floresta, como se estivéssemos dentro de nós próprios, como se nos tivéssemos encontrado por termos fechado os olhos ao mesmo tempo, a mulher falou-me de um homem que morria. Hoje sou eu que preciso de ti, disse-me. A minha bicicleta estava largada no chão. Entre as árvores, desde lugares frescos que ninguém conseguiria encontrar, ouvia-se o mistério dos insectos. Um mundo sobre o mundo. Eu olhava a mulher de negro. As palavras deixaram de existir.

O tempo passava entre as árvores. A tarde deixou de existir. Eu, que olhava para a mulher, que a conhecia tanto, gostava de dizer-lhe que não tivesse medo das árvores, dos insectos que espalham mistérios pelo vento, da noite, a noite. Eu segurava a mão da mulher. Os seus olhos estavam cercados por roupas negras, um lenço negro. Um xaile negro. Hoje preciso de ti. Depois de nós, nesse tempo, houve uma verdade que ficou parada nos meus olhos: alguém de quem gostamos muito, o amor, ficará nas árvores, continuará a crescer, como uma criança, dentro dos troncos e dos ramos mais finos das árvores.

Passei os braços sobre os ombros da mulher de negro. Desci as minhas mãos ao longo das suas costas. Senti-a dentro dos meus braços. O seu peito tocava o meu peito. O tempo deixou de existir. O silêncio deixou de existir. As palavras deixaram de existir. A mulher de negro encostou a testa ao meu ombro. Eu sentia todo o seu corpo, velho, frágil, dentro dos meus braços. Abraçando o negro, existíamos antes, durante e depois do futuro.

by JoséLuísPeixoto
in CAL



setembro 07, 2011

O ESPELHO


imagem encontrada na net


Há qualquer coisa de profundamente irresistível nos homens que nunca deixam de ter ar de rapazes que jogam à bola e vão a pé para o liceu. O olhar aceso de quem acabou de roubar chocolates da dispensa, o andar errático, os cabelos sempre despenteados, as mãos claras, direitas e sem marcas do tempo e o riso tímido como se fosse sempre a primeira vez. São meninos para sempre e podem viver para sempre no coração de uma mulher.

Tu és assim uma espécie de rapazinho capaz de grandes tropelias que esconde a idade atrás da candura que nunca perdeste, apesar de todas as marcas que foste herdando dos dias; a infância guardada numa caixa escondida debaixo da cama, a adolescência dos copos e das drogas leves, o teu melhor amigo que roubou a miúda de quem gostavas no Verão em que fizeste 18 anos, a primeira vez que andaste à pancada, o medo do outro ser mais forte e de se rirem de ti, a vontade de sair de casa e abraçar o mundo, e depois a solidão repartida entre as mulheres que desejaste e nunca tiveste e as outras, as que te incendiavam o corpo e te deixavam o coração em pedra porque nunca as amaste.

Depois cresceste, começaste a trabalhar, a usar fato e gravata quando era preciso e agora, todas as manhãs, ao espelho, perguntas à tua imagem quem és tu afinal, a viver numa cidade que não é tua nem de ninguém numa casa pequena demais para os teus sonhos que se dissolvem no vapor do duche da mesma forma que já perdeste uma ou duas mulheres que não soubeste ou quiseste amar da forma certa, aquela que faz com que as pessoas continuem juntas pela vida, como se tivessem sido separadas à nascença e um fio invisível as voltasse a unir para sempre. E perguntas à tua imagem onde vês um homem mais baixo, menos belo e menos inteligente do que na realidade és se essa mulher já passou pela tua distracção ou se a divina providência ainda ta pode trazer, vestida de Primavera com os cabelos compridos e um sorriso tão sem idade como o teu. Imaginas a sua chegada como se descesse de um baloiço suspenso das nuvens, as pernas compridas e os braços estendidos, o cheiro adocicado da pele clara, a boca a pedir atenção e o olhar a perguntar-te se a vais escolher, quando foi ela que já te escolheu e só te está a dar a ilusão que és tu que mandas na tua vida.

Ao espelho, onde vês o reflexo entre o homem que és e aquele que gostarias de ser, respiras fundo e desejas que essa mulher chegue um dia, mas não demasiado cedo para te assustar nem demasiado tarde porque entretanto pode aparecer outra e tu vais deixar-te ir, convencido que é essa e não eu a mulher da tua vida.

O que tu não sabes, meu querubim cansado, é que do outro lado do espelho eu te vigio, como se fosse o teu avesso e te protejo, como se fosse o teu presente, e te desejo, como se pudesse ser o teu futuro.

Mas é ainda demasiado cedo, é ainda tempo de guardar no silêncio dos dias a vontade de te querer. É ainda de manhã e tu estás atrasado para o trabalho e eu estou adiantada na tua vida, por isso respiro fundo do outro lado da tua imagem e espero, sentada no baloiço, lá mesmo em cima, para que não me vejas, que um dia dês o salto para o outro lado da tua vida e sejas quem sempre sonhaste para que te vejas ao espelho como eu já te vejo, como tu és.

by MargaridaRebeloPinto
in TEXTOS INÉDITOS


setembro 06, 2011



imagem da net


trago os instrumentos do fogo
ponho-os na boca
ponho-os no coração



trago os instrumentos da respiração
- uma montanha, uma árvore que lhe dá abrigo -
e suspendo-os nos ramos como pinhas que dão sombra
um lugar fresco para os deportados de Sião nas margens



trouxe também os instrumentos dos mineiros
uma luz na cabeça voltada para o pensamento
um olhar profundo
o modo prisioneiro de virem livremente para fora



e trago todos os instrumentos na circulação do sangue e na ocupação permanente
das mãos
para o instrumento difícil
do silêncio



by DanielFaria 



setembro 04, 2011

AS POUCAS PALAVRAS



imagem da net


Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
ditas como por acaso.

Eram contudo palavras de amor.
Não propriamente ditas,
antes adivinhadas. Ou só pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.
Foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. Não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso brilhavam. Como folhas
molhadas.

by EugénioDeAndrade
in Os Sulcos da Sede

agosto 28, 2011

TEORIA DO ENIGMA


da série: IMAGENS OCULTAS  
Patrícia Silva




Há um sentido subjacente ao que escrevo,
a que nenhuma decifração pode restituir
a leitura. Não digo que seja secreto, que tenha nascido
de um desejo de ocultar o que é visível, tal
como nenhuma peneira pode esconder o sol. O
que acontece é que ele não se encontra nos dicionários,
não se descobre em listas de sinónimos, e nenhum tradutor
irá descobrir outro vocabulário mais claro
para dizer o que está dito, mesmo que não seja
compreensível para quem procura, na letra,
o que só o espírito conhece. Porém, não me refiro
à metafísica. A gramática, na sua textura mais simples,
limita-se a transmitir o que é dito para ser assim,
neste movimento mecânico que nos obriga a atribuir
uma significação imediata às palavras. Depois,
há uma outra música, que nasce daquilo que, para uns,
se chama a sugestão, e outros interpretam como
o sopro divino. Nem uma nem o outro me interessam. O
sentido és tu, na perfeição absoluta com que o som e a imagem
se juntam, para que nada nos separe. Podem abrir
os tratados de interpretação; ouvir os sábios; discutir
teorias. Esta verdade é minha; e quando te encontro,
sob o sentido do que digo, todo o poema
está explicado.

by: NunoJúdice
in: Geometria Variável


agosto 21, 2011

AS CIDADES INVISIVEIS


Rafal Olbinski



E no entanto, em Raissa, a cada momento há uma criança que de uma janela ri a um cão que saltou sobre um alpendre para morder um bocado de massa que caiu a um pedreiro que do alto do andaime exclamou:- Alegria minha, deixa-me pintar-te! - a uma jovem taberneira que atravessa a pérgula com um prato de carne nas mãos, contente por servi-lo ao fabricante de chapéus de chuva que festeja um bom negócio, uma sombrinha de renda branca comprada por uma grande dama para se pavonear nas corridas, enamorada de um oficial que lhe sorriu ao saltar a última barreira, feliz ele mas mais feliz ainda o seu cavalo que voava sobre os obstáculos vendo voar no céu um francolim, feliz ave liberta da gaiola por um pintor feliz por tê-la pintado pena a pena com manchinhas vermelhas e amarelas na miniatura daquela página do livro em que diz o filósofo: "Mesmo em Raissa, cidade triste, corre um fio invisível que liga um ser vivo a outro por um instante e a seguir se desfaz, e depois torna a estender-se entre pontos em movimento desenhando novas rápidas figuras de modo que a cada segundo a cidade infeliz contem uma cidade feliz que nem sequer sabe que existe".

by: ItaloCalvino
in: As Cidades Invisíveis




agosto 10, 2011




Era no tempo da intensidade dos dias, quando o alegre murmurar do regato abafava a teia do asfalto. Bebia ocasos e madrugadas a olhar as aves, a senti-las, a entender a sua bússula.
A inquietude nunca se desfazia, nunca se desfez. Aprendi a sentir-lhe a respiração, a conhecer-lhe as manhas, a rir-me com ela. Mas há apelos que nunca se inquietam. E parti.
Quando me despedi, num vislumbre, atiraste-me uma flor.
Ainda hoje lhe sinto o aroma.

julho 25, 2011

RETÓRICA INCANDESCENTE PARA TECIDO DE SUSTENTAÇÃO CORPORAL



sim,
atira-me ao fundo do mar
como quem beija,
todo o tecido pede violência
para medir a resistência.

quero os teus pulsos
de guelras temperados em sangue negro.
um dia, cordão de açucar,
no outro, lábio de voo plano.
desejo as tuas mãos
de óleo com escamas na pele
a escorrer precipícios trágicos
sobre a trajectória dos peixes.

sim,
ata-me às rochas do mar
como quem ama
prende-me com algas
mesmo que a eternidade se escreva com cinzas
dispersas pelo vento
algures entre os trilhos do sangue aceso por dentro
e os pés que tropeçaram nas botas e no caminho.

se todo o amor fica incompleto
na estreiteza do corpo
e os lábios adormecem
na contracapa da noite
para quê recordar as cartas recebidas?
as palavras são apenas ossos brancos
a apodrecer no negativo fotográfico
com que um dia ousamos
fotografar a melancolia dos rostos.


by: JorgePimenta


julho 19, 2011

ENTRE AS FIBRAS DO MEU SONHO



by Escha van den Bogerd


Neste delírio que me queima
reciclo as tuas imagens
[com a inalação de drogado]
no perfume que derramas
entre as fibras do meu sonho.
És a lava de uma praia
és areia incandescente que eu beijo
feito mar em fumarolas,
envolvendo e entranhando
cada poro do teu ser.

De tão nua, és a princesa
que se embrulha na devassa
da loucura que em mim lavra,
porque visto a beleza dessa alma
que me espreita libertária
e escondo essa nudez de sortes feita
a embelezar a tua fronte,
à qual me rendo paladino e feudatário.

by NilsonBarcelli
http://nimbypolis.blogspot.com/

julho 14, 2011

O FIM DA TARDE

by Eduardo Arguelles

quando nos mastros mais altos
das escarpas
as bandeiras em desassossego
caminhavam sibililinas
por uma nesga de sol

tu eras um rio
contra a vontade das águas
a desaguar

margens
pássaros
barcos
sedimentos

à procura de uma nova expressão
para todos os azuis

ainda hoje não te descobri
mas estou a ver-te aqui dos mastros
tão infinita
sentada no cais

um dia vou encontrar-te
antiga
olhos hasteados

a construir o fim da tarde

by MarArável
http://mararavel.blogspot.com/


julho 08, 2011

À VOLTA DO POEMA SEM VOZ

by Duy Huynh
A MOMENT OF NOISE


o Sol aceso sobre a página do caderno onde escrevo. os lençóis do vento batem nas folhas das árvores, e ouço as letras da primavera balouçarem no campo das mesas. vivem na força do poema que passa rápido. não consigo projectá-lo na voz de fora. não importa.
deixo-me inundar pelas suas águas. que nascem de uma falta.
o poema passa como expressão de um círculo com outros círculos dentro. libertar-se do centro é o seu movimento. encontrar -se no texto com a poeira da voz. escrevo cópias dele em toda a parte.
a criança deitada na noite, que chora, procura-lhe as mãos, a boca do espaço, uma voz sem voz, a palavra, pela gravidade da sombra que o cerca, a metáfora.
nelas repousam as imagens . reflectem no brilho da escrita a potência criadora da tinta. os gestos .
e pela primeira vez o poema fala.
o corpo sente a sua voz intocável pela distribuição das águas.
há rosas subtis que o texto vem procurar em nós.
como disse Rilke,
o que faz a sensualidade mais alta é a distribuição da luz.


by MariaAzenha
http://estrelasegalaxias.blogspot.com/

julho 05, 2011


by Duy Huynh
Time Flies with Strings Attached 

The artist has written, “Many say that time is money. Money as with any other object can be replaced when lost. Time on the other hand is a permanently lost gift if not used wisely.”
http://www.escapeintolife.com/


é preciso dizer
que não há mais nada a celebrar
nem os homens
nem as ideias
nem o tempo

essa fenda
que te atravessa a vida
esse rasgão generoso
que te aproximava os céus
fechou-se

estás perante o escuro silêncio
das coisas mortas

não abandones os espelhos

ainda que quebrados
eles são o palácio derradeiro
o último jardim
a gota impossível
de secar

guarda aí a semente
as palavras
as vozes
as imagens

porque o amor
é um minucioso trabalho do tempo
em direcção à morte

by: GilT.Sousa
FALSO LUGAR


julho 02, 2011


imagem da net


Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora sómente eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.

Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu queria gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como direi?! -
um sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta da  criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furidunda melâncolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

by HerbertoHelder
[poemacto II]

junho 28, 2011

DISPAROS DE PALAVRAS SECAS SOBRE A PÓLVORA VULCÂNICA DA BOCA


by Kristin Linder


maltratámos as palavras com rugas
embrulhadas nas raízes
das nossas bocas
e o verso foi cedendo ao metal liquido da forja
entre o ventre do vulcão e o fogo.

nem os pardais da beira-costa
escaparam à sua pólvora:
afogaram o mar
esqueceram o olhar
e depuseram as asas aos pés de um sono antigo
como se a morte fosse a resposta
para todas as perguntas que não soubemos formular.

estremece-nos nos pés o rugido da lava
na composição do poema-mar.
ah, ao lixo as palavras mal-ditas
que as asas dos pássaros acordaram
[os olhos querem-se cegos na liberdade do vôo]
e a morte é o orgasmo da alma
na nova alvorada dos sentidos.

finas, metálicas, insidiosas:
para que servem as palavras
se há tão pouco a dizer?

by OutrosEncantos & JorgePimenta



Björk & Thom York, i'seen it all

junho 27, 2011

LEMBRO-ME DE TI!...


imagem da net


Lembro-me de ti
Nesse instante absoluto,
A vida conduzida por um fio de música.
Intenso e delicado, ele vai-nos fechando num casulo
Onde tudo será permitido.
Se é só isso que podemos ter,
Que seja forte. Que seja único.
Tão íntimo quanto ouvirmos a mesma melodia,
Tendo o mesmo - esplêndido - pensamento.

by LyaLuft


junho 25, 2011

A MÁSCARA



Pinto no rosto tonalidades de júbilo em festa
Entre rios vermelhos que nascem nos meus olhos
Perante sulcos do tempo impiedoso
Como se a loucura fosse servida aos molhos

Abrem-se as pupilas recebendo a tristeza
Sem pedir licença para entrar
Invade-me peremptória e permanece
Instala-se imperiosa e inevitável no meu contemplar

Que abatimento é este que me invade
Que anseio é este de me enclausurar na sombra em permanência
Que aperto na garganta me altera as feições do rosto
Vibrando noutro tempo e lugar num esgar de ausência
Entre o amortecer em remanso qual criatura insana
Longe do vómito em que se tornou
Este sobreviver da existência humana

Pobres de nós ignorando o portal de acesso
Ao pleno amor como luz e consciência
As ciladas cruéis do ego vaidoso, convicto intolerante
Que nem se apercebe da demência

Cada riso contraria esta alma isolada
Por sentir que as demais criaturas
São apenas estranheza
Artimanhas e enredos
Teatralidades personagens inventadas
Por traumas e medos
Porque nesta esfera de breu
Já não sei se sou eu que forjo o mundo
Ou se a eterna manipulada sou eu!

by LuzEfémera


junho 24, 2011

AMOR E PECADO



Pearllang
Martha Graham
[Voice of Dance Photo Gallery]


- desculpe, tem AMOR?
- esgotado
- e PECADO?
- o último foi levado
apressadamente
por uma cliente
- linda?
- princesa de um grão-ducado
que deixou um beijo pousado
no balcão da minha alma
- saiu há muito?
- quem? o beijo ou a donzela?
- ela
- saiu montada em cavalo
e deixou perdido, um sorriso
escorrido
num adeus muito diferente
como se o morrer
fosse destino
como se a tristeza
fosse seu fado
perfeitamente traçado
por uma história menor
- qual a direcção?
- siga o bater do coração
vá sem fazer ruído
abrace o perfume do vento
pois o PECADO levado
deixa fumo sonhador
que entra dentro do peito
vai apagando a saudade
e com um risco cuidado
vai desenhando o AMOR

by NunoGuimarães

junho 23, 2011

PRIMEIRA IMAGEM

Marta Graham


Numa tarde de sol,
dispôs-se no bordado e a bordar.
É que a luz da varanda era tão forte
que os olhos se detinham,
implodindo.
"Um sonho" desejara.
E alguém, sorrindo,
lentamente afastou-se,
monte acima.

by AnaLuisaAmaral

junho 19, 2011

AUTOGÉNESE


Natália Correia 
by
Artur Bual


Nascitura estava
sem faca nos dentes
cómoda e impura
de não ter vontade
de bater nas gentes.

Nasce-se em Setúbal
nasce-se em Pequim
eu sou do Açores
(relativamente
naquilo que tenho
de basalto e flores)
mas não é assim:
a gente só nasce
quando somos nós
que temos as dores.

Pragas e castigos
foram-me gerando
por trás dos castigos
e fórceps de raiva
me arrancaram toda
em sangue de mim.

Nascitura estava
sorria e jantava
e um beijo me deste
tu Pedro ou Silvestre
turvo namorado
do verão ou de outono
hibernal afecto
casca azul do sono
sem unhas do feto.

Eu nasci das balas
eu cresci das setas
que em prendas de sala
me foram jogando
os mulheres poetas
eu nasci dos seios
dores que me cresceram
pomos do ciúme
dos que não morderam.

Nasci de me verem
sempre de soslaio
de eu dizer em junho
e eles em maio
de ser como eles
às vezes por fora
mas nunca por dentro
perfil de uma estátua
que não sou de frente.

Nascitura estava
e mais que imperfeita
de ser sorte ou dado
que qualquer mão deita.

Eu nasci de haver
os bairros da lata
do dedo que escapa
dos sapatos rotos
da fome que mata
o que quer nascer
e que o sábio guarda
em frascos de abortos.

Eu nasci de ver
cheirar e ouvir
dum odor a mortos
(judeus enlatados
para caberem mais
mas desinfectados)
pelas chaminés
nazis a saír
de te ver passar
de me despedir
de teus olhos tristes
como se existisses.

Nascitura estava
tom de rosa pulcra
eu me declinava
vésper em latim
impura de todos
gostarem de mim.


by NatáliaCorreia
no Gil T - http://canaldepoesia.blogspot.com/ 

junho 14, 2011

ENVOI



by Annie Culbertson


Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico a compoôr,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância de cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há-de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo,
Salvo a Beleza, a sós.


by EzraPound
(traduzido por Augusto de Campos)

junho 06, 2011

in "FELICIDADE CLANDESTINA"



imagem da net


........
Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura e para que eu nascera sem nojo da dor.

Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para te arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo homem.

Para que serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada.

Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir.

by ClariceLispector



junho 05, 2011

Play it, Sam.... play, As the time Goes By



ROSAS DO DESERTO
by António Santa Clara
[encontrada na net]


CASABLANCA

Não era um bar de Kashbah, mas um café
em Leça da Palmeira (pequena vila ao norte
do país), a tua voz aqui me leva lá

O resto: é só mudar na gente aqui
a roupa ocidental para barba e burel,
vislumbrando punhal entre mil panos

O resto: é só virar a cor do espectro
para branco e cinzento - já agora
em lugar daquela mesa, organizar piano (em contraponto)

O resto: é só subir a temperatura
uns vinte graus (ou mais) disfarçar a ternura
como, há cinquenta anos, esses dois

O resto: é inventar em Leça da Palmeira,
no meio de nevoeiro tão imenso,
um olhar tenso a disfarçar-se brando
(um poço de desejo, e ventoinha em avião de espanto)

Nas mesas do café de Leça da Palmeira:
Casablanca voando, e à medida que o tempo
se desfaz imenso: um saxofone brando,

deixar junto do verso a promessa do nada
que não houve, mas se senta ao piano
repete, como em sonho, a mesma melodia

- traduzida em inglês: toca outra vez e outra,
que nem Kashbah aqui, mas bem podia
ser a tua voz (num registo final)

by AnaLuísaAmaral



junho 04, 2011

TODOS OS CAVALOS

pintura de Raquel Martins

http://telasetintas.no.sapo.pt/
http://www.raquelmartins.net/


os gados todos que andei em pelo
na carne dura, vou interrogá-los.
meu antro desastrado, meu novelo
selvagens putos, todos os cavalos.
cavalos são estrondos, são estradas.
cavalos são leões. suas voragens
repisam os estouros das manadas
cavalos são estrelas e homenagens.
me vi na contramão destes cavalos.
eu, puro sangue, em desalinhos.
eles, impuros, bebem nos gargalos.
todo cavalo, é um monte de espinhos.

by RomérioRómulo

junho 03, 2011

SOBRE UM POEMA


Sophie Berard [when the sun sets]



Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redoma e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

by HerbertoHelder



junho 02, 2011

VIAGENS DE PERÍMETRO CURTO NAS LINHAS DA MÃO



disseste-me que a eternidade
é de papel
com caracteres pequenos,
como as tuas mãos,
impressa a tinta
e leves rasuras,
tecido frágil após a queda
e bicicleta que se desprendeu da curva

viajo
nas ruas redondas de ti
onde me refaço
e amanheço
ou me perco e enlouqueço
e me despedaço,
no adormecer de cada tarde
vazia de ti

disseste-me que a felicidade
se escreve com os teus dedos
e se lê pelos meus olhos
enquanto centenas de pessoas
que perderam o rosto
e esqueceram toda a linguagem
tropeçam no asfalto dos dias
à espera do esquecimento dos versos

nos teus olhos ousei escrever
o poema
que as minhas mãos escondiam,
para que os versos não se percam
nas curvas sem rosto,
nem resvalem sem rumo
nas rectas infinitas
por fora de ti

tudo me disseste...
em quase tudo acreditei...

[acaso saberemos nós a medida certa do corpo
algures entre a explosão do sangue
e a erosão do coração?]

by outrosEncantos & JorgePimenta


by Astrid Riecken

junho 01, 2011

MARÉS

Salvador Dali

Os dias sucedem-se como marés, espraiam-se como portas nesse palácio absurdo que é a vida. Cada uma encerra a surpresa do futuro ou a agressão violenta do passado, numa desordem que nos domina sempre na razão inversa da vontade e do desejo.

Há pontos no tempo que são como lupas apontadas à minúcia desse caos. E é por aí que a loucura ronda e nos seduz ao limiar, dos abismos, numa espécie de sonolência inocente onde todos os pensamentos concorrem para a realização desse vitral que é a alma: domínio de todas as sombras e de todos os brilhos.


by GilT.Sousa
falso lugar
2004

maio 31, 2011

A MULHER


imagem da net

Metade mulher metade pássaro
Metade anémona metade névoa

Metade água metade mágoa
Metade silêncio metade búzio

Metade manhã metade fogo
Metade jade metade tarde

Metade mulher metade sonho


in A Ferida Aberta
by JorgeSousaBraga [o poeta nú]

maio 29, 2011

ESCREVO


imagem da net

Escrevo
para que os teus olhos
fiquem fora das orbitas
enquanto te sufoco.
faço-o para te agredir
e beijar
à medida que te apunhalo
e te possuo
com as palavras
afiadas pela tua imaginação.

O que escrevo
só te sacode pelo som da tua voz
pelo convite da tua pele
para que seja perfurada pelo toque
e este se hospede
amplificado,
entre o sangue
e a medula do teu querer.

Solto as palavras
e o teu livre arbítrio vai respirá-las
até que te controlem
e tenhas que te despojar da pele
para te libertares da seiva
que ameaça eclodir,
até que se torne insuportável
não as ouvir
com o olhar arregalado
no delírio febril da percepção.

by NilsonBarcelli



maio 28, 2011

COMO UMA FLOR VERMELHA



À sua passagem a noite é vermelha,
e a vida que temos parece
exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai, nem de onde vem,
mas o eco dos seus passos
enche o ar de caminhos e de espaços
e acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
e o desconhecido cresce
como uma flor vermelha.

by SophiadeMelloBreyner

maio 27, 2011

maio 25, 2011

E AO ANOITECER

martha graham

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fina lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

by al berto

DIZEM QUE A PAIXÃO O CONHECEU

rafal olbinsky


dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

by al berto