outubro 22, 2011

ESTAMOS ZANGADOS COM A LUA



estamos zangados com a lua,
com o céu
e com o que se passa na rua.

andamos com esta desavença
na mala onde guardamos
as inutilidades que conquistamos,
mas a nossa alma é a mesma:
é uma liga de inferno e paraíso,
caldeada pela luz
e pelas trevas do que somos.

e somos apenas a convulsão
de uma coisa que não dominamos.

mas vivemos,
porque somos génios da ambiguidade
entre o grande e o elementar,
engrenados na imperfeição
das rodas dentadas humanas.

by NilsonBarcelli




outubro 21, 2011

PENSÁMOS EM NADA





Pensámos tanto em nada. Despenteados
caçamos fantasmas de elefantes
na casa desarrumada, de estores fechados,
milionários esbanjadores de instantes,
piratas de tesouros enterrados, ilhas distantes,
sorte parada. Pensámos demasiado em nada.
Cobertos por farrapos de tempo,
arame farpado de tempo, cheiro a terra
molhada, um momento, outro momento,
a memória inteira emparedada, e nós, 
sem desculpas, astronautas, centauros,
entre o sexo e o medo, presos na piscina
vazia e abandonada, no centro de tudo,
pensámos apenas em nada.

by JoséLuísPeixoto
http://www.joseluispeixoto.net/


outubro 16, 2011

O CEGO DAS ESQUINAS



- Digo-te a bruma coada na cidade, para
extase do porvir. Incito-te ao
levantamento do chão onde adormecem
lábios e pedras em murmúrios e salivas -
só para te ver transgredir as pautas.

- Eu digo-te uma luz ao fundo, protegida
por sombras e sons, numa campânula de
pedras em arco.

- Repara no cego.

- Repara no cão.

- Quando chega a casa - imagino um
cubículo de madeira - o cego das
esquinas mergulha as mãos no saco das
bofetadas, retira-as para o tampo da
mesa e conta o abandono a que o
votaram em cada moeda coitadinha.

É o cego das esquinas.O tempo de
rastos.

- Quem anda a montar o tempo?

- São os donos dos prédios altos que
fazem esquinas para os cegos.

- São os fazedores de cegos, os
os vendedores de concertinas.

by: MarArável
http://mararavel.blogspot.com

outubro 08, 2011




by: Magritte


surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

by: EugéniodeAndrade

outubro 02, 2011