julho 25, 2011

RETÓRICA INCANDESCENTE PARA TECIDO DE SUSTENTAÇÃO CORPORAL



sim,
atira-me ao fundo do mar
como quem beija,
todo o tecido pede violência
para medir a resistência.

quero os teus pulsos
de guelras temperados em sangue negro.
um dia, cordão de açucar,
no outro, lábio de voo plano.
desejo as tuas mãos
de óleo com escamas na pele
a escorrer precipícios trágicos
sobre a trajectória dos peixes.

sim,
ata-me às rochas do mar
como quem ama
prende-me com algas
mesmo que a eternidade se escreva com cinzas
dispersas pelo vento
algures entre os trilhos do sangue aceso por dentro
e os pés que tropeçaram nas botas e no caminho.

se todo o amor fica incompleto
na estreiteza do corpo
e os lábios adormecem
na contracapa da noite
para quê recordar as cartas recebidas?
as palavras são apenas ossos brancos
a apodrecer no negativo fotográfico
com que um dia ousamos
fotografar a melancolia dos rostos.


by: JorgePimenta


julho 19, 2011

ENTRE AS FIBRAS DO MEU SONHO



by Escha van den Bogerd


Neste delírio que me queima
reciclo as tuas imagens
[com a inalação de drogado]
no perfume que derramas
entre as fibras do meu sonho.
És a lava de uma praia
és areia incandescente que eu beijo
feito mar em fumarolas,
envolvendo e entranhando
cada poro do teu ser.

De tão nua, és a princesa
que se embrulha na devassa
da loucura que em mim lavra,
porque visto a beleza dessa alma
que me espreita libertária
e escondo essa nudez de sortes feita
a embelezar a tua fronte,
à qual me rendo paladino e feudatário.

by NilsonBarcelli
http://nimbypolis.blogspot.com/

julho 14, 2011

O FIM DA TARDE

by Eduardo Arguelles

quando nos mastros mais altos
das escarpas
as bandeiras em desassossego
caminhavam sibililinas
por uma nesga de sol

tu eras um rio
contra a vontade das águas
a desaguar

margens
pássaros
barcos
sedimentos

à procura de uma nova expressão
para todos os azuis

ainda hoje não te descobri
mas estou a ver-te aqui dos mastros
tão infinita
sentada no cais

um dia vou encontrar-te
antiga
olhos hasteados

a construir o fim da tarde

by MarArável
http://mararavel.blogspot.com/


julho 08, 2011

À VOLTA DO POEMA SEM VOZ

by Duy Huynh
A MOMENT OF NOISE


o Sol aceso sobre a página do caderno onde escrevo. os lençóis do vento batem nas folhas das árvores, e ouço as letras da primavera balouçarem no campo das mesas. vivem na força do poema que passa rápido. não consigo projectá-lo na voz de fora. não importa.
deixo-me inundar pelas suas águas. que nascem de uma falta.
o poema passa como expressão de um círculo com outros círculos dentro. libertar-se do centro é o seu movimento. encontrar -se no texto com a poeira da voz. escrevo cópias dele em toda a parte.
a criança deitada na noite, que chora, procura-lhe as mãos, a boca do espaço, uma voz sem voz, a palavra, pela gravidade da sombra que o cerca, a metáfora.
nelas repousam as imagens . reflectem no brilho da escrita a potência criadora da tinta. os gestos .
e pela primeira vez o poema fala.
o corpo sente a sua voz intocável pela distribuição das águas.
há rosas subtis que o texto vem procurar em nós.
como disse Rilke,
o que faz a sensualidade mais alta é a distribuição da luz.


by MariaAzenha
http://estrelasegalaxias.blogspot.com/

julho 05, 2011


by Duy Huynh
Time Flies with Strings Attached 

The artist has written, “Many say that time is money. Money as with any other object can be replaced when lost. Time on the other hand is a permanently lost gift if not used wisely.”
http://www.escapeintolife.com/


é preciso dizer
que não há mais nada a celebrar
nem os homens
nem as ideias
nem o tempo

essa fenda
que te atravessa a vida
esse rasgão generoso
que te aproximava os céus
fechou-se

estás perante o escuro silêncio
das coisas mortas

não abandones os espelhos

ainda que quebrados
eles são o palácio derradeiro
o último jardim
a gota impossível
de secar

guarda aí a semente
as palavras
as vozes
as imagens

porque o amor
é um minucioso trabalho do tempo
em direcção à morte

by: GilT.Sousa
FALSO LUGAR


julho 02, 2011


imagem da net


Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora sómente eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.

Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu queria gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como direi?! -
um sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta da  criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furidunda melâncolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

by HerbertoHelder
[poemacto II]