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janeiro 23, 2012

ARTE POETICA




Jean-Claude Desplanques

"o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, Lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar doce de menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?,que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir à tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é um palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido. "

by JoséLuísPeixoto
in "Criança em Ruínas"


outubro 21, 2011

PENSÁMOS EM NADA





Pensámos tanto em nada. Despenteados
caçamos fantasmas de elefantes
na casa desarrumada, de estores fechados,
milionários esbanjadores de instantes,
piratas de tesouros enterrados, ilhas distantes,
sorte parada. Pensámos demasiado em nada.
Cobertos por farrapos de tempo,
arame farpado de tempo, cheiro a terra
molhada, um momento, outro momento,
a memória inteira emparedada, e nós, 
sem desculpas, astronautas, centauros,
entre o sexo e o medo, presos na piscina
vazia e abandonada, no centro de tudo,
pensámos apenas em nada.

by JoséLuísPeixoto
http://www.joseluispeixoto.net/


setembro 09, 2011

A MULHER DE NEGRO






Quando me aproximei da bicicleta, prestei atenção aos meus passos na terra. O som da terra solta a mover-se sob os meus pés. A terra solta como um animal seco a falar-me numa voz de tempo que passou, que se esgotou em anos que não vivi. Como se eu caminhasse, me aproximasse da bicicleta, e a terra sob os meus pés fosse já uma terra morta, fosse já um resto seco, solto e morto que muitas gerações usaram e me deixaram usado, gasto, seco, solto e morto. Depois, os movimentos de subir para cima da bicicleta desenhados pelo som da terra solta da estrada. Eu a passar a perna direita sobre o selim. Eu a sentar-me, a pousar os pés nos pedais. Os pneus da bicicleta, finos. Os pneus a deslizarem na terra. O som liso da terra interrompido por pedras. Pedras como a pontuação da tarde. Pedras pequenas como vírgulas, pedras maiores como pontos.

À minha volta, árvores, todos os tons da cor verde. Todas as lembranças da cor verde: carvalhos com a cor de vozes a falarem-me de um tempo bom; pinheiros com a cor escura do medo; choupos com a cor da água a correr, e a infância, e a profundidade bela dos lagos que imaginei porque, em algum momento da minha vida imaginei lagos profundos e belos. Deixei a estrada, um movimento no guiador da bicicleta, os dois braços a moverem a linha do guiador da bicicleta. De repente, a terra seca a desaparecer. Uma fronteira que talvez fosse uma porta e, sob o pneu da bicicleta, a terra seca a transformar-se em ervas depois de ter chovido, raízes húmidas a saírem fora da terra, pedras limpas. De repente, não se conseguia imaginar o pó. Troncos de árvores à minha volta. Arbustos que se agarravam a troncos de árvores, como se fossem braços que se agarravam a troncos grossos de árvores. A luz entrelaçava-se em tudo: nos troncos, nos arbustos, no som dos pneus da bicicleta a fazerem estalar pequenos ramos sobre o chão húmido de ervas e de folhas. A luz chegava de um céu que nem se via, nem se imaginava depois dos ramos mais altos das árvores.

Ao entrar na floresta, o guiador a balançar nas minhas mãos, afastava-se de tudo o que era a minha casa, os meus amigos, os lugares onde pensava que me podia sentir seguro. A tarde tornara-se fresca no meu corpo sob as roupas: a camisola branca, as calças. Conhecia menos o meu corpo sob as roupas do que conhecia as roupas. Conhecia as roupas do tempo que passaram guardadas em gavetas, conhecia-as de quando as dobrei e guardei em gavetas, quando as escolhi e comprei, e, nesse dia, quando as escolhi por querer vesti-las. Lembrava-me do meu corpo. E, ao longe, na berma do caminho, um vulto negro. Os sons da floresta, as árvores, a bicicleta e, ao longe, o silêncio imóvel de um vulto negro. Aproximei-me e era uma mulher vestida de negro. Um xaile negro sobre os ombros. Um lenço negro sobre a cabeça. O som dos pneus da bicicleta a pararem, o som de amassarem folhas húmidas e de fazerem estalar ramos. Os meus pés a pousarem no chão. Os olhos da mulher entre o negro. Os olhos pequenos da mulher. O seu rosto branco. Vimo-nos como se nos encontrássemos, como se nos tivéssemos perdido havia muito tempo e nos encontrássemos. O tempo deixou de existir. O silêncio deixou de existir. Pousei a bicicleta no chão para caminhar na direcção da mulher. Era atraído por segredos. Durante os meus passos a mulher estendeu-me a mão. A sua mão era muito velha. A palma da sua mão tinha linhas que eram o mapa de uma vida inteira, uma vida com todos os seus enganos, com todos os seus erros, com todas as suas tentativas. Os seus olhos de pedra. Senti os ossos da sua mão a envolverem os meus dedos. Não me puxou, mas eu aproximei o meu corpo do seu. Senti a sua respiração no meu pescoço. A sua respiração era uma brisa. E a sua voz. Quanto chorei por ti, disse-me.

Eu soube que aquela mulher de negro me conhecia muito bem. Conhecia-me quando eu estava sozinho. Conhecia-me quando eu pensava naquilo que nunca contei a ninguém. Os seus olhos tinham a imagem da minha angústia. Quanto chorei por ti. Hoje, sou eu que preciso de ti, disse-me. Olhei-a nos olhos porque os olhos eram o sítio por onde ela me via. Tínhamos as mãos dadas, estávamos próximos, mas eram os olhos que deixavam que nos tocássemos. Falou-me de um homem que morria. A morte. Eu encontrei a morte muitas vezes. Há instantes em que a morte me toca. A morte tem mãos de fumo. Em instantes que não consigo prever, a morte toca-me por dentro. Às vezes, dou-lhe a mão, aproximo-me dela, ouço o que tem para me dizer. Eu conhecia muito bem aquela mulher de negro. Dentro da floresta, como se estivéssemos dentro de nós próprios, como se nos tivéssemos encontrado por termos fechado os olhos ao mesmo tempo, a mulher falou-me de um homem que morria. Hoje sou eu que preciso de ti, disse-me. A minha bicicleta estava largada no chão. Entre as árvores, desde lugares frescos que ninguém conseguiria encontrar, ouvia-se o mistério dos insectos. Um mundo sobre o mundo. Eu olhava a mulher de negro. As palavras deixaram de existir.

O tempo passava entre as árvores. A tarde deixou de existir. Eu, que olhava para a mulher, que a conhecia tanto, gostava de dizer-lhe que não tivesse medo das árvores, dos insectos que espalham mistérios pelo vento, da noite, a noite. Eu segurava a mão da mulher. Os seus olhos estavam cercados por roupas negras, um lenço negro. Um xaile negro. Hoje preciso de ti. Depois de nós, nesse tempo, houve uma verdade que ficou parada nos meus olhos: alguém de quem gostamos muito, o amor, ficará nas árvores, continuará a crescer, como uma criança, dentro dos troncos e dos ramos mais finos das árvores.

Passei os braços sobre os ombros da mulher de negro. Desci as minhas mãos ao longo das suas costas. Senti-a dentro dos meus braços. O seu peito tocava o meu peito. O tempo deixou de existir. O silêncio deixou de existir. As palavras deixaram de existir. A mulher de negro encostou a testa ao meu ombro. Eu sentia todo o seu corpo, velho, frágil, dentro dos meus braços. Abraçando o negro, existíamos antes, durante e depois do futuro.

by JoséLuísPeixoto
in CAL



maio 05, 2011

FINGIR QUE ESTÁ TUDO BEM:...


fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas, fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes. na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas: tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo
nos lábios sempre a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima: um fogo que nos afoga.

by JoséLuísPeixoto