setembro 27, 2011

AS PRIMEIRAS CHUVAS



Gustav Klimt


DESPONTA SETEMBRO
NESTE JARDIM DE DESASSOSSEGOS

OUTROS CÉUS
PÁSSAROS 
E CORES

MAS SÓ NOS TEUS BRAÇOS
EM FLOR, ADORMECEM
AS PRIMEIRAS CHUVAS

VICEJAM AINDA TÍMIDOS
OS RELÂMPAGOS
À SOMBRA DAS ROMÃS

E JÁ É TANTO

by MarArável

setembro 25, 2011

PROSARIA





Apago com luz estrelas que aguardam que o sol friolentamente se dilua no céu e faça luar o teu nome. Apago com palavras aquelas noites em que o sono não pega em ti e adormecemos de abraços dados cada um com o seu lugar marcado. À hora da poesia. Não faças distância perto de mim. Já não temos juízo nem idade para mastigar saudades. 
À hora da poesia.
És tu o poema. Engole estes versos que te dou sob a forma de tranquilizante para curar a arritmia dos dias feitos de sonhar. Negra-me a pele. Endireita o caminho enquanto atraverso o poema de um lado ao outro e dá-me tempo para temperar a impaciência.
À hora da poesia.
Farei silêncio grelhado com pedaços de lua cheia. Farei carícias enlatadas e cachos de manga com sabor a fruta. Se restar fôlego. Farei crepúsculo cozido com fragmentos de nevoeiro. Não. Tudo menos crepúsculo. A última vez que fiz deixei queimar as horas dentro da panela. Quando destapei o tempo já não havia minutos que chegassem para namorar prazeres.
À hora da poesia.
É o teu alguém que acontece em mim como se não tivesse acontecido nada. É o idoso que vou sendo cada vez que a idade celebra mais um ano. É despertar com os teus sorrisos os sorrisos que ainda não ousas. São antídotos fora do alcance da fala. São botões de emergência preguiçosos. São braços entrelançados no peito.
À hora da poesia.
Escrever-te-ei em prosa para que possas tomar cada verso como um banho de cascata no coração. Respirar profundo o mar de hoje rente à linha do horizontem. Descascar a loucura ao ritmo de um grito definitivo e descalçar ilusões antes que seja tarde para recuperar a realidade.
À hora da poesia.
Quem te mandou a ti ensaboar o corpo com insultos de amor? Quem te rasgou poemas nos olhos apenas pelo simples facto de serem cascas de relâmpago colados à pele? À hora de bater asas na cara de outros voos. Quem te mandou assaltar trapézios com a altura de um céu? Quem me virá acudir se me acontecer um poema e tu não tiveres mais poesia para encher versos? Quem sacudiu lençóis de água à varanda da minha sede? Quem te vai emprestar os meus lábios quando os teus já não tiverem mais beijos para gastar?
Eu. Eu que te julgava um poema? Não! Tudo menos poemas.
Hoje sei que à vista desarmada a poesia é realidade que acontece quando não se tem outra ilusão. Mas. O que importa escrever assim ou assado se conservo em mim a dádiva de ser alado como um pássaro voando na direcção correcta? 

by Paradoxos


"Prosaria" 
na voz de José-António Moreira, “Sons da Escrita”. 

Vídeo/Prémio 
atribuído pelo “Clube dos Poetas Vivos”. 

Grato a Otília Martel e ao Luís Milhano pela criação e organização do 
Passatempo “Viver a Poesia” 



setembro 23, 2011

SE VENS À MINHA PROCURA





SE VENS À MINHA PROCURA
EU AQUI ESTOU. TOMA-ME NOITE,
SEM SOMBRA DE AMARGURA,
CONSCIENTE DO QUE SOU.

NIMBA-TE DE MIM E DE LUAR.
DISPERSO EM TI SEREI MAIS TEU.
E DEIXA-ME DERRAMADO NO OLHAR
DE QUEM JÁ ME ESQUECEU.

by EugénioDeAndrade


setembro 20, 2011

TU

Vladimir Kush


TU, que ocultas nos olhos a força dos elementos
TU, que no teu sorriso alimentas a esperança
TU, que nos teus lábios emergem fantasias
TU, que no teu rosto transparece a ansiedade
TU, que no teu rosto se revelam mil desejos
TU, que em tuas mãos despertam subtis carícias
TU, que em cada gesto dominas o impulso

TU, que sabes ser o tempo a eternidade,
e sabes que a vida não perdoa hesitações,
não temas por mais tempo a realidade
não reprimas no peito as tuas emoções

TU, que sabes existir em tudo imperfeição,
e sabes haver outro horizonte à tua espera,
não pode haver tratado, regra ou convenção
que impeça de viver a tua primavera...

TU, que sabes ser a vida apenas um momento
e sabes que há-de vir a hora da verdade,
solta as tuas velas à mercê do vento
e parte deste cais rumo à liberdade!...


by AlbinoSantos
http://as-poliedro.blogspot.com/

setembro 16, 2011

DESPIDO POR UM OUTONO


imagem da net

- boa noite
- boa noite
- linda lua…
- talvez se a noite não fosse
uma noite assim tão nua
- nua? Os meus olhos não enxergam
A nudez que te apoquenta
- porque não tens o teu peito
despido por um Outono
que me parecia perfeito
- o inverno se aproxima
- o inverno não me encontra
morro aos pedaços, de frio
fico-me só por um fio
do lado de cá da vida
- é uma batalha perdida?
Ou é só um doentio
Ataque de solidão?
- talvez seja coração
Ou ausência de ternura
Doença que não tem cura
Apanhada com um beijo
Numa noite onde ela
Me vestiu, sua loucura

By NunoGuimarães


setembro 09, 2011

A MULHER DE NEGRO






Quando me aproximei da bicicleta, prestei atenção aos meus passos na terra. O som da terra solta a mover-se sob os meus pés. A terra solta como um animal seco a falar-me numa voz de tempo que passou, que se esgotou em anos que não vivi. Como se eu caminhasse, me aproximasse da bicicleta, e a terra sob os meus pés fosse já uma terra morta, fosse já um resto seco, solto e morto que muitas gerações usaram e me deixaram usado, gasto, seco, solto e morto. Depois, os movimentos de subir para cima da bicicleta desenhados pelo som da terra solta da estrada. Eu a passar a perna direita sobre o selim. Eu a sentar-me, a pousar os pés nos pedais. Os pneus da bicicleta, finos. Os pneus a deslizarem na terra. O som liso da terra interrompido por pedras. Pedras como a pontuação da tarde. Pedras pequenas como vírgulas, pedras maiores como pontos.

À minha volta, árvores, todos os tons da cor verde. Todas as lembranças da cor verde: carvalhos com a cor de vozes a falarem-me de um tempo bom; pinheiros com a cor escura do medo; choupos com a cor da água a correr, e a infância, e a profundidade bela dos lagos que imaginei porque, em algum momento da minha vida imaginei lagos profundos e belos. Deixei a estrada, um movimento no guiador da bicicleta, os dois braços a moverem a linha do guiador da bicicleta. De repente, a terra seca a desaparecer. Uma fronteira que talvez fosse uma porta e, sob o pneu da bicicleta, a terra seca a transformar-se em ervas depois de ter chovido, raízes húmidas a saírem fora da terra, pedras limpas. De repente, não se conseguia imaginar o pó. Troncos de árvores à minha volta. Arbustos que se agarravam a troncos de árvores, como se fossem braços que se agarravam a troncos grossos de árvores. A luz entrelaçava-se em tudo: nos troncos, nos arbustos, no som dos pneus da bicicleta a fazerem estalar pequenos ramos sobre o chão húmido de ervas e de folhas. A luz chegava de um céu que nem se via, nem se imaginava depois dos ramos mais altos das árvores.

Ao entrar na floresta, o guiador a balançar nas minhas mãos, afastava-se de tudo o que era a minha casa, os meus amigos, os lugares onde pensava que me podia sentir seguro. A tarde tornara-se fresca no meu corpo sob as roupas: a camisola branca, as calças. Conhecia menos o meu corpo sob as roupas do que conhecia as roupas. Conhecia as roupas do tempo que passaram guardadas em gavetas, conhecia-as de quando as dobrei e guardei em gavetas, quando as escolhi e comprei, e, nesse dia, quando as escolhi por querer vesti-las. Lembrava-me do meu corpo. E, ao longe, na berma do caminho, um vulto negro. Os sons da floresta, as árvores, a bicicleta e, ao longe, o silêncio imóvel de um vulto negro. Aproximei-me e era uma mulher vestida de negro. Um xaile negro sobre os ombros. Um lenço negro sobre a cabeça. O som dos pneus da bicicleta a pararem, o som de amassarem folhas húmidas e de fazerem estalar ramos. Os meus pés a pousarem no chão. Os olhos da mulher entre o negro. Os olhos pequenos da mulher. O seu rosto branco. Vimo-nos como se nos encontrássemos, como se nos tivéssemos perdido havia muito tempo e nos encontrássemos. O tempo deixou de existir. O silêncio deixou de existir. Pousei a bicicleta no chão para caminhar na direcção da mulher. Era atraído por segredos. Durante os meus passos a mulher estendeu-me a mão. A sua mão era muito velha. A palma da sua mão tinha linhas que eram o mapa de uma vida inteira, uma vida com todos os seus enganos, com todos os seus erros, com todas as suas tentativas. Os seus olhos de pedra. Senti os ossos da sua mão a envolverem os meus dedos. Não me puxou, mas eu aproximei o meu corpo do seu. Senti a sua respiração no meu pescoço. A sua respiração era uma brisa. E a sua voz. Quanto chorei por ti, disse-me.

Eu soube que aquela mulher de negro me conhecia muito bem. Conhecia-me quando eu estava sozinho. Conhecia-me quando eu pensava naquilo que nunca contei a ninguém. Os seus olhos tinham a imagem da minha angústia. Quanto chorei por ti. Hoje, sou eu que preciso de ti, disse-me. Olhei-a nos olhos porque os olhos eram o sítio por onde ela me via. Tínhamos as mãos dadas, estávamos próximos, mas eram os olhos que deixavam que nos tocássemos. Falou-me de um homem que morria. A morte. Eu encontrei a morte muitas vezes. Há instantes em que a morte me toca. A morte tem mãos de fumo. Em instantes que não consigo prever, a morte toca-me por dentro. Às vezes, dou-lhe a mão, aproximo-me dela, ouço o que tem para me dizer. Eu conhecia muito bem aquela mulher de negro. Dentro da floresta, como se estivéssemos dentro de nós próprios, como se nos tivéssemos encontrado por termos fechado os olhos ao mesmo tempo, a mulher falou-me de um homem que morria. Hoje sou eu que preciso de ti, disse-me. A minha bicicleta estava largada no chão. Entre as árvores, desde lugares frescos que ninguém conseguiria encontrar, ouvia-se o mistério dos insectos. Um mundo sobre o mundo. Eu olhava a mulher de negro. As palavras deixaram de existir.

O tempo passava entre as árvores. A tarde deixou de existir. Eu, que olhava para a mulher, que a conhecia tanto, gostava de dizer-lhe que não tivesse medo das árvores, dos insectos que espalham mistérios pelo vento, da noite, a noite. Eu segurava a mão da mulher. Os seus olhos estavam cercados por roupas negras, um lenço negro. Um xaile negro. Hoje preciso de ti. Depois de nós, nesse tempo, houve uma verdade que ficou parada nos meus olhos: alguém de quem gostamos muito, o amor, ficará nas árvores, continuará a crescer, como uma criança, dentro dos troncos e dos ramos mais finos das árvores.

Passei os braços sobre os ombros da mulher de negro. Desci as minhas mãos ao longo das suas costas. Senti-a dentro dos meus braços. O seu peito tocava o meu peito. O tempo deixou de existir. O silêncio deixou de existir. As palavras deixaram de existir. A mulher de negro encostou a testa ao meu ombro. Eu sentia todo o seu corpo, velho, frágil, dentro dos meus braços. Abraçando o negro, existíamos antes, durante e depois do futuro.

by JoséLuísPeixoto
in CAL



setembro 07, 2011

O ESPELHO


imagem encontrada na net


Há qualquer coisa de profundamente irresistível nos homens que nunca deixam de ter ar de rapazes que jogam à bola e vão a pé para o liceu. O olhar aceso de quem acabou de roubar chocolates da dispensa, o andar errático, os cabelos sempre despenteados, as mãos claras, direitas e sem marcas do tempo e o riso tímido como se fosse sempre a primeira vez. São meninos para sempre e podem viver para sempre no coração de uma mulher.

Tu és assim uma espécie de rapazinho capaz de grandes tropelias que esconde a idade atrás da candura que nunca perdeste, apesar de todas as marcas que foste herdando dos dias; a infância guardada numa caixa escondida debaixo da cama, a adolescência dos copos e das drogas leves, o teu melhor amigo que roubou a miúda de quem gostavas no Verão em que fizeste 18 anos, a primeira vez que andaste à pancada, o medo do outro ser mais forte e de se rirem de ti, a vontade de sair de casa e abraçar o mundo, e depois a solidão repartida entre as mulheres que desejaste e nunca tiveste e as outras, as que te incendiavam o corpo e te deixavam o coração em pedra porque nunca as amaste.

Depois cresceste, começaste a trabalhar, a usar fato e gravata quando era preciso e agora, todas as manhãs, ao espelho, perguntas à tua imagem quem és tu afinal, a viver numa cidade que não é tua nem de ninguém numa casa pequena demais para os teus sonhos que se dissolvem no vapor do duche da mesma forma que já perdeste uma ou duas mulheres que não soubeste ou quiseste amar da forma certa, aquela que faz com que as pessoas continuem juntas pela vida, como se tivessem sido separadas à nascença e um fio invisível as voltasse a unir para sempre. E perguntas à tua imagem onde vês um homem mais baixo, menos belo e menos inteligente do que na realidade és se essa mulher já passou pela tua distracção ou se a divina providência ainda ta pode trazer, vestida de Primavera com os cabelos compridos e um sorriso tão sem idade como o teu. Imaginas a sua chegada como se descesse de um baloiço suspenso das nuvens, as pernas compridas e os braços estendidos, o cheiro adocicado da pele clara, a boca a pedir atenção e o olhar a perguntar-te se a vais escolher, quando foi ela que já te escolheu e só te está a dar a ilusão que és tu que mandas na tua vida.

Ao espelho, onde vês o reflexo entre o homem que és e aquele que gostarias de ser, respiras fundo e desejas que essa mulher chegue um dia, mas não demasiado cedo para te assustar nem demasiado tarde porque entretanto pode aparecer outra e tu vais deixar-te ir, convencido que é essa e não eu a mulher da tua vida.

O que tu não sabes, meu querubim cansado, é que do outro lado do espelho eu te vigio, como se fosse o teu avesso e te protejo, como se fosse o teu presente, e te desejo, como se pudesse ser o teu futuro.

Mas é ainda demasiado cedo, é ainda tempo de guardar no silêncio dos dias a vontade de te querer. É ainda de manhã e tu estás atrasado para o trabalho e eu estou adiantada na tua vida, por isso respiro fundo do outro lado da tua imagem e espero, sentada no baloiço, lá mesmo em cima, para que não me vejas, que um dia dês o salto para o outro lado da tua vida e sejas quem sempre sonhaste para que te vejas ao espelho como eu já te vejo, como tu és.

by MargaridaRebeloPinto
in TEXTOS INÉDITOS


setembro 06, 2011



imagem da net


trago os instrumentos do fogo
ponho-os na boca
ponho-os no coração



trago os instrumentos da respiração
- uma montanha, uma árvore que lhe dá abrigo -
e suspendo-os nos ramos como pinhas que dão sombra
um lugar fresco para os deportados de Sião nas margens



trouxe também os instrumentos dos mineiros
uma luz na cabeça voltada para o pensamento
um olhar profundo
o modo prisioneiro de virem livremente para fora



e trago todos os instrumentos na circulação do sangue e na ocupação permanente
das mãos
para o instrumento difícil
do silêncio



by DanielFaria 



setembro 04, 2011

AS POUCAS PALAVRAS



imagem da net


Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
ditas como por acaso.

Eram contudo palavras de amor.
Não propriamente ditas,
antes adivinhadas. Ou só pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.
Foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. Não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso brilhavam. Como folhas
molhadas.

by EugénioDeAndrade
in Os Sulcos da Sede