maio 31, 2011

A MULHER


imagem da net

Metade mulher metade pássaro
Metade anémona metade névoa

Metade água metade mágoa
Metade silêncio metade búzio

Metade manhã metade fogo
Metade jade metade tarde

Metade mulher metade sonho


in A Ferida Aberta
by JorgeSousaBraga [o poeta nú]

maio 29, 2011

ESCREVO


imagem da net

Escrevo
para que os teus olhos
fiquem fora das orbitas
enquanto te sufoco.
faço-o para te agredir
e beijar
à medida que te apunhalo
e te possuo
com as palavras
afiadas pela tua imaginação.

O que escrevo
só te sacode pelo som da tua voz
pelo convite da tua pele
para que seja perfurada pelo toque
e este se hospede
amplificado,
entre o sangue
e a medula do teu querer.

Solto as palavras
e o teu livre arbítrio vai respirá-las
até que te controlem
e tenhas que te despojar da pele
para te libertares da seiva
que ameaça eclodir,
até que se torne insuportável
não as ouvir
com o olhar arregalado
no delírio febril da percepção.

by NilsonBarcelli



maio 28, 2011

COMO UMA FLOR VERMELHA



À sua passagem a noite é vermelha,
e a vida que temos parece
exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai, nem de onde vem,
mas o eco dos seus passos
enche o ar de caminhos e de espaços
e acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
e o desconhecido cresce
como uma flor vermelha.

by SophiadeMelloBreyner

maio 27, 2011

maio 25, 2011

E AO ANOITECER

martha graham

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fina lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

by al berto

DIZEM QUE A PAIXÃO O CONHECEU

rafal olbinsky


dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

by al berto

maio 22, 2011

PARA TI




Albena Vatoheva

foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma vida só

by MiaCouto
in Raíz de Orvalho e Outros Poemas

maio 21, 2011

ERA AMANHÃ [um carinho para mim]


pormenor da tela 
"Olhos nos Olhos"
do Guma

Era amanhã
Hora de fazer o ponto
Da situação.
Que ventos nos trouxeram
Que ventos nos levaram
Fomos onda, vento ou barco
Rumo ou praia
Quanta interrogação?
Que temos nós a ver
Com a idade
Ou com a rosa dos ventos
Dos relógios em mutação?
Que temos nós a ver
Com as folhas que se desprendem
E pétalas que se abrem
Orvalhadas ou não?
Que temos nós a ver?

Mas era amanhã
A hora irredutível
De fazer o ponto
Da situação.

A noite
Era tempestade ultrapassada
E os espaços abertos
Estavam preenchidos.
Então porque pousar
Em nossos olhos
O medo de ter medo
De novos amanhãs?

by Kimbanda

maio 18, 2011

ESTOU ESCONDIDO NA COR AMARGA DO FIM DA TARDE

estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que
o outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento

by valterhugomãe

maio 17, 2011

in "A Evocação do Teu Nome"


(A)MAR

Sob as pálpebras do tempo
rasgamos a madrugada!
Invadimos as veredas da noite,
despimos nossos sonhos
por detrás das dunas,
onde o mar se acaba com a voz em fúria.

Será o cais do amor mais lascivo
ecoando delírios de fogo e sal,
num vai - vem de prazer
por entre as vagas!

Em marés de espuma e desejo,
nosso mar se derrama na mais densa onda!
Explosão de orgasmos
no fulgor de um relâmpago submerso...

by AlbinoSantos

maio 15, 2011

A MÚSICA




Álamos —
música
de matutina cal.

Doces vogais
de sombra e água
num verão de fulvos
lentos animais.

Calhandra matinal
no ar
feliz de junho.

Acidulada
música de cardos.

Música do fogo
em redor dos lábios.

Desatada
à roda da cintura.

Entre as pernas,
junta.

Música
das primeiras chuvas
sobre o feno.

Só aroma.
Abelha de água.

Regaço
onde o lume breve
de uma romã brilha.

Música, levai-me:
Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?



by EugénioDeAndrade
[OBSCURO DOMÍNIO]

AS MULHERES QUE ENVELHECEM



Martha Graham


Gosto das mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caidos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterraneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.



by NunoJudice

maio 14, 2011

AS ROSAS

Martha Graham

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

by: SophiaDeMelloBreynerAndresen

maio 05, 2011

FINGIR QUE ESTÁ TUDO BEM:...


fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas, fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes. na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas: tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo
nos lábios sempre a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima: um fogo que nos afoga.

by JoséLuísPeixoto

maio 03, 2011

ESTRADA DE FOGO



Pedra a pedra a estrada antiga
Sobe a colina, passa adiante
De musgosos muros e desce
Para nenhum sopé;

Encurva na abstracta encruzilhada;
apaga-se, na realidade. Morre
como o rastilho de fogo,
que de campo em campo aberto

seguia, e ao bater da mágica cancela
dobrava a chama, para uma respiração,
e deixava o caminho do portal
incólume e iniciado.

de FiamaHassePaisBrandão