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novembro 10, 2013

CORAÇÃO HABITADO


Rafal Olbinski

Aqui estão as mãos. 
São os mais belos sinais da terra. 
Os anjos nascem aqui: 
frescos, matinais, quase de orvalho, 
de coração alegre e povoado. 

Ponho nelas a minha boca, 
respiro o sangue, o seu rumor branco, 
aqueço-as por dentro, abandonadas 
nas minhas, as pequenas mãos do mundo. 

Alguns pensam que são as mãos de deus 
— eu sei que são as mãos de um homem, 
trémulas barcaças onde a água, 
a tristeza e as quatro estações 
penetram, indiferentemente. 

Não lhes toquem: são amor e bondade. 
Mais ainda: cheiram a madressilva. 
São o primeiro homem, a primeira mulher. 
E amanhece. 

Eugénio de Andrade
in "Até Amanhã"




dezembro 31, 2012

SAUDANDO 2013





MÚSICA, LEVAI-ME:

ONDE ESTÃO AS BARCAS?
ONDE SÃO AS ILHAS?

Eugénio de Andrade



outubro 03, 2012





Vê como de súbito o céu se fecha
sobre dunas e barcos,
e cada um de nós se volta e fixa
os olhos um no outro,
e como deles devagar escorre
a última luz sobre as areias.
.
Que diremos ainda? Serão palavras,
isto que aflora aos lábios?
Palavras?, este rumor tão leve
que ouvimos o dia desprender-se?
Palavras, ou luz ainda?
.
Palavras, não. Quem as sabia?
Foi apenas lembrança doutra luz.
Nem luz seria, apenas outro olhar.

by: Eugénio de Andrade



outubro 08, 2011




by: Magritte


surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

by: EugéniodeAndrade

setembro 23, 2011

SE VENS À MINHA PROCURA





SE VENS À MINHA PROCURA
EU AQUI ESTOU. TOMA-ME NOITE,
SEM SOMBRA DE AMARGURA,
CONSCIENTE DO QUE SOU.

NIMBA-TE DE MIM E DE LUAR.
DISPERSO EM TI SEREI MAIS TEU.
E DEIXA-ME DERRAMADO NO OLHAR
DE QUEM JÁ ME ESQUECEU.

by EugénioDeAndrade


setembro 04, 2011

AS POUCAS PALAVRAS



imagem da net


Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
ditas como por acaso.

Eram contudo palavras de amor.
Não propriamente ditas,
antes adivinhadas. Ou só pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.
Foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. Não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso brilhavam. Como folhas
molhadas.

by EugénioDeAndrade
in Os Sulcos da Sede

maio 15, 2011

A MÚSICA




Álamos —
música
de matutina cal.

Doces vogais
de sombra e água
num verão de fulvos
lentos animais.

Calhandra matinal
no ar
feliz de junho.

Acidulada
música de cardos.

Música do fogo
em redor dos lábios.

Desatada
à roda da cintura.

Entre as pernas,
junta.

Música
das primeiras chuvas
sobre o feno.

Só aroma.
Abelha de água.

Regaço
onde o lume breve
de uma romã brilha.

Música, levai-me:
Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?



by EugénioDeAndrade
[OBSCURO DOMÍNIO]