junho 28, 2011

DISPAROS DE PALAVRAS SECAS SOBRE A PÓLVORA VULCÂNICA DA BOCA


by Kristin Linder


maltratámos as palavras com rugas
embrulhadas nas raízes
das nossas bocas
e o verso foi cedendo ao metal liquido da forja
entre o ventre do vulcão e o fogo.

nem os pardais da beira-costa
escaparam à sua pólvora:
afogaram o mar
esqueceram o olhar
e depuseram as asas aos pés de um sono antigo
como se a morte fosse a resposta
para todas as perguntas que não soubemos formular.

estremece-nos nos pés o rugido da lava
na composição do poema-mar.
ah, ao lixo as palavras mal-ditas
que as asas dos pássaros acordaram
[os olhos querem-se cegos na liberdade do vôo]
e a morte é o orgasmo da alma
na nova alvorada dos sentidos.

finas, metálicas, insidiosas:
para que servem as palavras
se há tão pouco a dizer?

by OutrosEncantos & JorgePimenta



Björk & Thom York, i'seen it all

junho 27, 2011

LEMBRO-ME DE TI!...


imagem da net


Lembro-me de ti
Nesse instante absoluto,
A vida conduzida por um fio de música.
Intenso e delicado, ele vai-nos fechando num casulo
Onde tudo será permitido.
Se é só isso que podemos ter,
Que seja forte. Que seja único.
Tão íntimo quanto ouvirmos a mesma melodia,
Tendo o mesmo - esplêndido - pensamento.

by LyaLuft


junho 25, 2011

A MÁSCARA



Pinto no rosto tonalidades de júbilo em festa
Entre rios vermelhos que nascem nos meus olhos
Perante sulcos do tempo impiedoso
Como se a loucura fosse servida aos molhos

Abrem-se as pupilas recebendo a tristeza
Sem pedir licença para entrar
Invade-me peremptória e permanece
Instala-se imperiosa e inevitável no meu contemplar

Que abatimento é este que me invade
Que anseio é este de me enclausurar na sombra em permanência
Que aperto na garganta me altera as feições do rosto
Vibrando noutro tempo e lugar num esgar de ausência
Entre o amortecer em remanso qual criatura insana
Longe do vómito em que se tornou
Este sobreviver da existência humana

Pobres de nós ignorando o portal de acesso
Ao pleno amor como luz e consciência
As ciladas cruéis do ego vaidoso, convicto intolerante
Que nem se apercebe da demência

Cada riso contraria esta alma isolada
Por sentir que as demais criaturas
São apenas estranheza
Artimanhas e enredos
Teatralidades personagens inventadas
Por traumas e medos
Porque nesta esfera de breu
Já não sei se sou eu que forjo o mundo
Ou se a eterna manipulada sou eu!

by LuzEfémera


junho 24, 2011

AMOR E PECADO



Pearllang
Martha Graham
[Voice of Dance Photo Gallery]


- desculpe, tem AMOR?
- esgotado
- e PECADO?
- o último foi levado
apressadamente
por uma cliente
- linda?
- princesa de um grão-ducado
que deixou um beijo pousado
no balcão da minha alma
- saiu há muito?
- quem? o beijo ou a donzela?
- ela
- saiu montada em cavalo
e deixou perdido, um sorriso
escorrido
num adeus muito diferente
como se o morrer
fosse destino
como se a tristeza
fosse seu fado
perfeitamente traçado
por uma história menor
- qual a direcção?
- siga o bater do coração
vá sem fazer ruído
abrace o perfume do vento
pois o PECADO levado
deixa fumo sonhador
que entra dentro do peito
vai apagando a saudade
e com um risco cuidado
vai desenhando o AMOR

by NunoGuimarães

junho 23, 2011

PRIMEIRA IMAGEM

Marta Graham


Numa tarde de sol,
dispôs-se no bordado e a bordar.
É que a luz da varanda era tão forte
que os olhos se detinham,
implodindo.
"Um sonho" desejara.
E alguém, sorrindo,
lentamente afastou-se,
monte acima.

by AnaLuisaAmaral

junho 19, 2011

AUTOGÉNESE


Natália Correia 
by
Artur Bual


Nascitura estava
sem faca nos dentes
cómoda e impura
de não ter vontade
de bater nas gentes.

Nasce-se em Setúbal
nasce-se em Pequim
eu sou do Açores
(relativamente
naquilo que tenho
de basalto e flores)
mas não é assim:
a gente só nasce
quando somos nós
que temos as dores.

Pragas e castigos
foram-me gerando
por trás dos castigos
e fórceps de raiva
me arrancaram toda
em sangue de mim.

Nascitura estava
sorria e jantava
e um beijo me deste
tu Pedro ou Silvestre
turvo namorado
do verão ou de outono
hibernal afecto
casca azul do sono
sem unhas do feto.

Eu nasci das balas
eu cresci das setas
que em prendas de sala
me foram jogando
os mulheres poetas
eu nasci dos seios
dores que me cresceram
pomos do ciúme
dos que não morderam.

Nasci de me verem
sempre de soslaio
de eu dizer em junho
e eles em maio
de ser como eles
às vezes por fora
mas nunca por dentro
perfil de uma estátua
que não sou de frente.

Nascitura estava
e mais que imperfeita
de ser sorte ou dado
que qualquer mão deita.

Eu nasci de haver
os bairros da lata
do dedo que escapa
dos sapatos rotos
da fome que mata
o que quer nascer
e que o sábio guarda
em frascos de abortos.

Eu nasci de ver
cheirar e ouvir
dum odor a mortos
(judeus enlatados
para caberem mais
mas desinfectados)
pelas chaminés
nazis a saír
de te ver passar
de me despedir
de teus olhos tristes
como se existisses.

Nascitura estava
tom de rosa pulcra
eu me declinava
vésper em latim
impura de todos
gostarem de mim.


by NatáliaCorreia
no Gil T - http://canaldepoesia.blogspot.com/ 

junho 14, 2011

ENVOI



by Annie Culbertson


Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico a compoôr,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância de cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há-de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo,
Salvo a Beleza, a sós.


by EzraPound
(traduzido por Augusto de Campos)

junho 06, 2011

in "FELICIDADE CLANDESTINA"



imagem da net


........
Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura e para que eu nascera sem nojo da dor.

Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para te arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo homem.

Para que serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada.

Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir.

by ClariceLispector



junho 05, 2011

Play it, Sam.... play, As the time Goes By



ROSAS DO DESERTO
by António Santa Clara
[encontrada na net]


CASABLANCA

Não era um bar de Kashbah, mas um café
em Leça da Palmeira (pequena vila ao norte
do país), a tua voz aqui me leva lá

O resto: é só mudar na gente aqui
a roupa ocidental para barba e burel,
vislumbrando punhal entre mil panos

O resto: é só virar a cor do espectro
para branco e cinzento - já agora
em lugar daquela mesa, organizar piano (em contraponto)

O resto: é só subir a temperatura
uns vinte graus (ou mais) disfarçar a ternura
como, há cinquenta anos, esses dois

O resto: é inventar em Leça da Palmeira,
no meio de nevoeiro tão imenso,
um olhar tenso a disfarçar-se brando
(um poço de desejo, e ventoinha em avião de espanto)

Nas mesas do café de Leça da Palmeira:
Casablanca voando, e à medida que o tempo
se desfaz imenso: um saxofone brando,

deixar junto do verso a promessa do nada
que não houve, mas se senta ao piano
repete, como em sonho, a mesma melodia

- traduzida em inglês: toca outra vez e outra,
que nem Kashbah aqui, mas bem podia
ser a tua voz (num registo final)

by AnaLuísaAmaral



junho 04, 2011

TODOS OS CAVALOS

pintura de Raquel Martins

http://telasetintas.no.sapo.pt/
http://www.raquelmartins.net/


os gados todos que andei em pelo
na carne dura, vou interrogá-los.
meu antro desastrado, meu novelo
selvagens putos, todos os cavalos.
cavalos são estrondos, são estradas.
cavalos são leões. suas voragens
repisam os estouros das manadas
cavalos são estrelas e homenagens.
me vi na contramão destes cavalos.
eu, puro sangue, em desalinhos.
eles, impuros, bebem nos gargalos.
todo cavalo, é um monte de espinhos.

by RomérioRómulo

junho 03, 2011

SOBRE UM POEMA


Sophie Berard [when the sun sets]



Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redoma e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

by HerbertoHelder



junho 02, 2011

VIAGENS DE PERÍMETRO CURTO NAS LINHAS DA MÃO



disseste-me que a eternidade
é de papel
com caracteres pequenos,
como as tuas mãos,
impressa a tinta
e leves rasuras,
tecido frágil após a queda
e bicicleta que se desprendeu da curva

viajo
nas ruas redondas de ti
onde me refaço
e amanheço
ou me perco e enlouqueço
e me despedaço,
no adormecer de cada tarde
vazia de ti

disseste-me que a felicidade
se escreve com os teus dedos
e se lê pelos meus olhos
enquanto centenas de pessoas
que perderam o rosto
e esqueceram toda a linguagem
tropeçam no asfalto dos dias
à espera do esquecimento dos versos

nos teus olhos ousei escrever
o poema
que as minhas mãos escondiam,
para que os versos não se percam
nas curvas sem rosto,
nem resvalem sem rumo
nas rectas infinitas
por fora de ti

tudo me disseste...
em quase tudo acreditei...

[acaso saberemos nós a medida certa do corpo
algures entre a explosão do sangue
e a erosão do coração?]

by outrosEncantos & JorgePimenta


by Astrid Riecken

junho 01, 2011

MARÉS

Salvador Dali

Os dias sucedem-se como marés, espraiam-se como portas nesse palácio absurdo que é a vida. Cada uma encerra a surpresa do futuro ou a agressão violenta do passado, numa desordem que nos domina sempre na razão inversa da vontade e do desejo.

Há pontos no tempo que são como lupas apontadas à minúcia desse caos. E é por aí que a loucura ronda e nos seduz ao limiar, dos abismos, numa espécie de sonolência inocente onde todos os pensamentos concorrem para a realização desse vitral que é a alma: domínio de todas as sombras e de todos os brilhos.


by GilT.Sousa
falso lugar
2004