da série: IMAGENS OCULTAS
Patrícia Silva
Há um sentido subjacente ao que escrevo,
a que nenhuma decifração pode restituir
a leitura. Não digo que seja secreto, que tenha nascido
de um desejo de ocultar o que é visível, tal
como nenhuma peneira pode esconder o sol. O
que acontece é que ele não se encontra nos dicionários,
não se descobre em listas de sinónimos, e nenhum tradutor
irá descobrir outro vocabulário mais claro
para dizer o que está dito, mesmo que não seja
compreensível para quem procura, na letra,
o que só o espírito conhece. Porém, não me refiro
à metafísica. A gramática, na sua textura mais simples,
limita-se a transmitir o que é dito para ser assim,
neste movimento mecânico que nos obriga a atribuir
uma significação imediata às palavras. Depois,
há uma outra música, que nasce daquilo que, para uns,
se chama a sugestão, e outros interpretam como
o sopro divino. Nem uma nem o outro me interessam. O
sentido és tu, na perfeição absoluta com que o som e a imagem
se juntam, para que nada nos separe. Podem abrir
os tratados de interpretação; ouvir os sábios; discutir
teorias. Esta verdade é minha; e quando te encontro,
sob o sentido do que digo, todo o poema
está explicado.
by: NunoJúdice
in: Geometria Variável
