agosto 28, 2011

TEORIA DO ENIGMA


da série: IMAGENS OCULTAS  
Patrícia Silva




Há um sentido subjacente ao que escrevo,
a que nenhuma decifração pode restituir
a leitura. Não digo que seja secreto, que tenha nascido
de um desejo de ocultar o que é visível, tal
como nenhuma peneira pode esconder o sol. O
que acontece é que ele não se encontra nos dicionários,
não se descobre em listas de sinónimos, e nenhum tradutor
irá descobrir outro vocabulário mais claro
para dizer o que está dito, mesmo que não seja
compreensível para quem procura, na letra,
o que só o espírito conhece. Porém, não me refiro
à metafísica. A gramática, na sua textura mais simples,
limita-se a transmitir o que é dito para ser assim,
neste movimento mecânico que nos obriga a atribuir
uma significação imediata às palavras. Depois,
há uma outra música, que nasce daquilo que, para uns,
se chama a sugestão, e outros interpretam como
o sopro divino. Nem uma nem o outro me interessam. O
sentido és tu, na perfeição absoluta com que o som e a imagem
se juntam, para que nada nos separe. Podem abrir
os tratados de interpretação; ouvir os sábios; discutir
teorias. Esta verdade é minha; e quando te encontro,
sob o sentido do que digo, todo o poema
está explicado.

by: NunoJúdice
in: Geometria Variável


agosto 21, 2011

AS CIDADES INVISIVEIS


Rafal Olbinski



E no entanto, em Raissa, a cada momento há uma criança que de uma janela ri a um cão que saltou sobre um alpendre para morder um bocado de massa que caiu a um pedreiro que do alto do andaime exclamou:- Alegria minha, deixa-me pintar-te! - a uma jovem taberneira que atravessa a pérgula com um prato de carne nas mãos, contente por servi-lo ao fabricante de chapéus de chuva que festeja um bom negócio, uma sombrinha de renda branca comprada por uma grande dama para se pavonear nas corridas, enamorada de um oficial que lhe sorriu ao saltar a última barreira, feliz ele mas mais feliz ainda o seu cavalo que voava sobre os obstáculos vendo voar no céu um francolim, feliz ave liberta da gaiola por um pintor feliz por tê-la pintado pena a pena com manchinhas vermelhas e amarelas na miniatura daquela página do livro em que diz o filósofo: "Mesmo em Raissa, cidade triste, corre um fio invisível que liga um ser vivo a outro por um instante e a seguir se desfaz, e depois torna a estender-se entre pontos em movimento desenhando novas rápidas figuras de modo que a cada segundo a cidade infeliz contem uma cidade feliz que nem sequer sabe que existe".

by: ItaloCalvino
in: As Cidades Invisíveis




agosto 10, 2011




Era no tempo da intensidade dos dias, quando o alegre murmurar do regato abafava a teia do asfalto. Bebia ocasos e madrugadas a olhar as aves, a senti-las, a entender a sua bússula.
A inquietude nunca se desfazia, nunca se desfez. Aprendi a sentir-lhe a respiração, a conhecer-lhe as manhas, a rir-me com ela. Mas há apelos que nunca se inquietam. E parti.
Quando me despedi, num vislumbre, atiraste-me uma flor.
Ainda hoje lhe sinto o aroma.