novembro 19, 2013


Astrid Riecken


Estar só é estar no intimo do mundo
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

 António Ramos Rosa



novembro 10, 2013

CORAÇÃO HABITADO


Rafal Olbinski

Aqui estão as mãos. 
São os mais belos sinais da terra. 
Os anjos nascem aqui: 
frescos, matinais, quase de orvalho, 
de coração alegre e povoado. 

Ponho nelas a minha boca, 
respiro o sangue, o seu rumor branco, 
aqueço-as por dentro, abandonadas 
nas minhas, as pequenas mãos do mundo. 

Alguns pensam que são as mãos de deus 
— eu sei que são as mãos de um homem, 
trémulas barcaças onde a água, 
a tristeza e as quatro estações 
penetram, indiferentemente. 

Não lhes toquem: são amor e bondade. 
Mais ainda: cheiram a madressilva. 
São o primeiro homem, a primeira mulher. 
E amanhece. 

Eugénio de Andrade
in "Até Amanhã"




agosto 03, 2013

A MEIAS




Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.



 Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?

 Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo
um cigarro e tu fumas do
meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu. Dá-te
gozo esse roubar
de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.

João Luís Barreto Guimarães




junho 14, 2013

COLHEITA

 
 

 
 
houve uma altura em que me preocupava
com o significado das palavras; o seu
sentido tinha de corresponder a qualquer coisa de
compreensível, como se tudo no mundo tivesse
uma explicação. por vezes, no entanto, havia imagens
que não tinham qualquer correspondência
com a realidade: flores abstractas cujas pétalas
eu colhera no campo da memória, uma a uma,
para as colar em cada verso. e essa contradição
entre o que eu queria dizer e o
que estava escrito, em que não havia
uma relação imediata com o pensamento,
inquietava-me. porém, ao descobrir que
essa inquietação faz parte do poema, pus
de parte o significado, e limpei de pétalas a
página. fiquei com as palavras no seu campo
de significações, verdes como as folhas
da primavera; e ao passar sob os ramos da
frase, arranhando-me nas suas consoantes mais
ásperas, e respirando o ar fresco das vogais
percebi que o sentido se encontra no gesto
com que lanço à terra a semente do acaso,
para que dela nasçam os arbustos
em cujos ramos se abrigam os pássaros
que cantam nesta estrofe.
 
Nuno Júdice
 
 
 
 

maio 11, 2013

ENQUANTO LONGE DIVAGAS






I

Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
- Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
- Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das
[sombras 
- Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
- Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem touro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba 
II 
O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como árvore no ar veloz detida 
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso 
III 
Pois no ar estremece a tua alegria
- Tua jovem rijeza de arbusto – 
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso 
Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso

Sophia de Mello Breyner



março 31, 2013

 
 
 

lembro-me de ti
nesse instante absoluto,
a vida conduzida por um fio de música.
intenso e delicado, ele vai-nos fechando num casulo

 onde tudo será permitido.
se é só isso que podemos ter,
que seja forte. Que seja único.
tão íntimo quanto ouvirmos a mesma melodia,
tendo o mesmo - esplêndido - pensamento.
 
Lya Luft
 
 

janeiro 29, 2013

A PRIMAVERA ABRE MIL FLORES



DE AMOR ARDEM OS BOSQUES

Remédios Varo


a primavera abre mil flores num sopro

livre
na flecha e no arco
escolhe o domínio das cores

de um espelho a outro
multiplica o jogo

Maria Azenha
[da quinta folha do coração dos bosques VII]