Mostrar mensagens com a etiqueta NUNO JÚDICE. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta NUNO JÚDICE. Mostrar todas as mensagens

junho 14, 2013

COLHEITA

 
 

 
 
houve uma altura em que me preocupava
com o significado das palavras; o seu
sentido tinha de corresponder a qualquer coisa de
compreensível, como se tudo no mundo tivesse
uma explicação. por vezes, no entanto, havia imagens
que não tinham qualquer correspondência
com a realidade: flores abstractas cujas pétalas
eu colhera no campo da memória, uma a uma,
para as colar em cada verso. e essa contradição
entre o que eu queria dizer e o
que estava escrito, em que não havia
uma relação imediata com o pensamento,
inquietava-me. porém, ao descobrir que
essa inquietação faz parte do poema, pus
de parte o significado, e limpei de pétalas a
página. fiquei com as palavras no seu campo
de significações, verdes como as folhas
da primavera; e ao passar sob os ramos da
frase, arranhando-me nas suas consoantes mais
ásperas, e respirando o ar fresco das vogais
percebi que o sentido se encontra no gesto
com que lanço à terra a semente do acaso,
para que dela nasçam os arbustos
em cujos ramos se abrigam os pássaros
que cantam nesta estrofe.
 
Nuno Júdice
 
 
 
 

novembro 19, 2012

A FONTE DAS IMAGENS



Albena Vatoheva


quando o poeta fala na "água clara", quando
se refere ao trinado dos pássaros que lembra
um murmúrio de amantes, quando ouve o vento
e nele todas as memórias do mundo, do
que fala? as coisas mais pessoais não
podem dizer-se; nem esse corpo, que ele guarda
num canto de si próprio, pertence ao
poema que a ele vai buscar a sua beleza,
e sem ele não teria existido. a mulher
amada, com seu signo de luz e a sua
chave de sonho, vestem-na todas as imagens
que o verso envolve como um nó; mas
é a sua ausência que o poema preenche,
nos dias que nos separam, até
esse encontro em que nos esvaziamos
de saudade, nos desfazemos de palavras,
e só a música do amor se ouve, no silêncio
da casa, até ao mais fundo da noite.
 
Nuno Júdice



agosto 28, 2011

TEORIA DO ENIGMA


da série: IMAGENS OCULTAS  
Patrícia Silva




Há um sentido subjacente ao que escrevo,
a que nenhuma decifração pode restituir
a leitura. Não digo que seja secreto, que tenha nascido
de um desejo de ocultar o que é visível, tal
como nenhuma peneira pode esconder o sol. O
que acontece é que ele não se encontra nos dicionários,
não se descobre em listas de sinónimos, e nenhum tradutor
irá descobrir outro vocabulário mais claro
para dizer o que está dito, mesmo que não seja
compreensível para quem procura, na letra,
o que só o espírito conhece. Porém, não me refiro
à metafísica. A gramática, na sua textura mais simples,
limita-se a transmitir o que é dito para ser assim,
neste movimento mecânico que nos obriga a atribuir
uma significação imediata às palavras. Depois,
há uma outra música, que nasce daquilo que, para uns,
se chama a sugestão, e outros interpretam como
o sopro divino. Nem uma nem o outro me interessam. O
sentido és tu, na perfeição absoluta com que o som e a imagem
se juntam, para que nada nos separe. Podem abrir
os tratados de interpretação; ouvir os sábios; discutir
teorias. Esta verdade é minha; e quando te encontro,
sob o sentido do que digo, todo o poema
está explicado.

by: NunoJúdice
in: Geometria Variável


maio 15, 2011

AS MULHERES QUE ENVELHECEM



Martha Graham


Gosto das mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caidos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterraneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.



by NunoJudice