novembro 19, 2012

A FONTE DAS IMAGENS



Albena Vatoheva


quando o poeta fala na "água clara", quando
se refere ao trinado dos pássaros que lembra
um murmúrio de amantes, quando ouve o vento
e nele todas as memórias do mundo, do
que fala? as coisas mais pessoais não
podem dizer-se; nem esse corpo, que ele guarda
num canto de si próprio, pertence ao
poema que a ele vai buscar a sua beleza,
e sem ele não teria existido. a mulher
amada, com seu signo de luz e a sua
chave de sonho, vestem-na todas as imagens
que o verso envolve como um nó; mas
é a sua ausência que o poema preenche,
nos dias que nos separam, até
esse encontro em que nos esvaziamos
de saudade, nos desfazemos de palavras,
e só a música do amor se ouve, no silêncio
da casa, até ao mais fundo da noite.
 
Nuno Júdice



novembro 13, 2012

DE PROFUNDIS AMAMUS



fonte: http://asfolhasardem.wordpress.com/

Ontem 
às onze 
fumaste 
um cigarro 
encontrei-te 
sentado 
ficámos para perder 
todos os teus eléctricos 
os meus 
estavam perdidos 
por natureza própria 

Andámos 
dez quilómetros
a pé 
ninguém nos viu passar 
excepto 
claro 
os porteiros 
é da natureza das coisas 
ser-se visto 
pelos porteiros 

Olha 
como só tu sabes olhar 
a rua os costumes 

O Público 
o vinco das tuas calças 
está cheio de frio 
e há quatro mil pessoas interessadas 
nisso 

Não 
faz mal abracem-me 
os teus olhos 
de extremo a extremo azuis 
vai ser assim durante muito tempo 
decorrerão muitos séculos antes de nós 
mas não te importes 
não te importes 
muito 
nós só temos a ver 
com o presente 
perfeito 
corsários de olhos de gato intransponível 
maravilhados maravilhosos únicos 
nem pretérito nem futuro tem 
o estranho verbo nosso 

by: Mário Cesariny