E no entanto, em Raissa, a cada momento há uma criança que de uma janela ri a um cão que saltou sobre um alpendre para morder um bocado de massa que caiu a um pedreiro que do alto do andaime exclamou:- Alegria minha, deixa-me pintar-te! - a uma jovem taberneira que atravessa a pérgula com um prato de carne nas mãos, contente por servi-lo ao fabricante de chapéus de chuva que festeja um bom negócio, uma sombrinha de renda branca comprada por uma grande dama para se pavonear nas corridas, enamorada de um oficial que lhe sorriu ao saltar a última barreira, feliz ele mas mais feliz ainda o seu cavalo que voava sobre os obstáculos vendo voar no céu um francolim, feliz ave liberta da gaiola por um pintor feliz por tê-la pintado pena a pena com manchinhas vermelhas e amarelas na miniatura daquela página do livro em que diz o filósofo: "Mesmo em Raissa, cidade triste, corre um fio invisível que liga um ser vivo a outro por um instante e a seguir se desfaz, e depois torna a estender-se entre pontos em movimento desenhando novas rápidas figuras de modo que a cada segundo a cidade infeliz contem uma cidade feliz que nem sequer sabe que existe".
by: ItaloCalvino
in: As Cidades Invisíveis
Há quem diga, e eu acredito piamente, que há fios
ResponderEliminarque são visíveis por apenas alguns olhares e invisíveis pra outros tantos; por aqui, pra mim, a visibilidade que transparece em afetos e desejos pulsáteis.
deixo-te imenso abraço
Rejane, acreditamos [sabemos]!
ResponderEliminarafectos..., gosto do que essa palavra traduz, em todas as suas vertentes, que são tantas...
gosto de como me lês, sempre além!...
no teu abraço, com afecto, Rejane.