dezembro 31, 2012

SAUDANDO 2013





MÚSICA, LEVAI-ME:

ONDE ESTÃO AS BARCAS?
ONDE SÃO AS ILHAS?

Eugénio de Andrade



novembro 19, 2012

A FONTE DAS IMAGENS



Albena Vatoheva


quando o poeta fala na "água clara", quando
se refere ao trinado dos pássaros que lembra
um murmúrio de amantes, quando ouve o vento
e nele todas as memórias do mundo, do
que fala? as coisas mais pessoais não
podem dizer-se; nem esse corpo, que ele guarda
num canto de si próprio, pertence ao
poema que a ele vai buscar a sua beleza,
e sem ele não teria existido. a mulher
amada, com seu signo de luz e a sua
chave de sonho, vestem-na todas as imagens
que o verso envolve como um nó; mas
é a sua ausência que o poema preenche,
nos dias que nos separam, até
esse encontro em que nos esvaziamos
de saudade, nos desfazemos de palavras,
e só a música do amor se ouve, no silêncio
da casa, até ao mais fundo da noite.
 
Nuno Júdice



novembro 13, 2012

DE PROFUNDIS AMAMUS



fonte: http://asfolhasardem.wordpress.com/

Ontem 
às onze 
fumaste 
um cigarro 
encontrei-te 
sentado 
ficámos para perder 
todos os teus eléctricos 
os meus 
estavam perdidos 
por natureza própria 

Andámos 
dez quilómetros
a pé 
ninguém nos viu passar 
excepto 
claro 
os porteiros 
é da natureza das coisas 
ser-se visto 
pelos porteiros 

Olha 
como só tu sabes olhar 
a rua os costumes 

O Público 
o vinco das tuas calças 
está cheio de frio 
e há quatro mil pessoas interessadas 
nisso 

Não 
faz mal abracem-me 
os teus olhos 
de extremo a extremo azuis 
vai ser assim durante muito tempo 
decorrerão muitos séculos antes de nós 
mas não te importes 
não te importes 
muito 
nós só temos a ver 
com o presente 
perfeito 
corsários de olhos de gato intransponível 
maravilhados maravilhosos únicos 
nem pretérito nem futuro tem 
o estranho verbo nosso 

by: Mário Cesariny



outubro 03, 2012





Vê como de súbito o céu se fecha
sobre dunas e barcos,
e cada um de nós se volta e fixa
os olhos um no outro,
e como deles devagar escorre
a última luz sobre as areias.
.
Que diremos ainda? Serão palavras,
isto que aflora aos lábios?
Palavras?, este rumor tão leve
que ouvimos o dia desprender-se?
Palavras, ou luz ainda?
.
Palavras, não. Quem as sabia?
Foi apenas lembrança doutra luz.
Nem luz seria, apenas outro olhar.

by: Eugénio de Andrade



setembro 17, 2012




Essa lua enlutada, esse desassossego
A convulsão de dentro, ilharga
Dentro da solidão, corpo morrendo
Tudo isso te devo. E eram tão vastas
As coisas planejadas, navios,
Muralhas de marfim, palavras largas
Consentimento sempre. E seria dezembro.
Um cavalo de jade sob as águas
Dupla transparência, fio suspenso
Todas essas coisas na ponta dos teus dedos
E tudo se desfez no portico do tempo
Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro
Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo

Também isso te devo.



agosto 14, 2012

HONEY BEE




Honey bee
Come buzzing me
I ain't seen you for so long
I need to feel you
I mean to reel you
Like the one described to me in song
Out in the woods
Tall pine tree woods
She gave sweet loving to me
Her woodland grace
Her soft embrace
My face in shadow
Honey bee
Won't you come see me in the morning?
Won't you come see me late at night?
For it ain't right, no it just ain't right
You're meant to turn away from the light
Night, all my lights are on
I need a little one on one
This useless, helpless feeling
A young man should be blessed with love
There's just flesh and fire below
This drunken, senseless reeling
Hands on my face
Some silk and lace
Sweet perfume kisses
For me
Wherever you burn
I have returned
You lucky lady
Honey bee
I have to leave you in the morning
You always wanted to be free
Stay with me
Sweet lucky lady
Don't ever leave me
Honey bee
Awake in cold places
Cool ice and icy faces
Some dead and some living
Most of them doing something in between
My lady in waiting
Must have turned to hating me
Some bitter awakening this has been
The next time she calls I'm gonna let her in
The next time she calls I'm gonna let her in
And if she leaves me in the morning
At least we both have been relieved
Now stay with me
Stay with me
Sweet lucky lady
Don't you ever leave me
Honey bee

de: Madrugada


julho 16, 2012

LISBON REVISETED



imagem encontrada aqui:

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.

Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul ­ o mesmo da minha infância ­,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos